“Câmara de Eco” e redes sociais antes dos 15?
Diz a Wikipedia que “uma câmara de eco, ou câmara de eco ideológica, é uma descrição metafórica de uma situação em que informação, ideias ou crenças são amplificadas ou reforçadas pela comunicação e repetição dentro de um sistema definido (…)
Dentro de uma câmara de eco, as fontes dominantes muitas vezes são inquestionáveis e opiniões diferentes ou concorrentes são censuradas ou desautorizadas”, ou seja, continuamos a “ouvir” o eco do que escrevermos/publicámos, sem contraditório. Viver numa “bolha” onde ninguém discorda das nossas crenças e convicções.
As redes sociais e os seus algoritmos potenciam este efeito e, tal como muitas vezes as máquinas mimetizaram comportamentos humanos, a “culpa” não é sequer exclusiva dos algoritmos de recomendação já que, muito antes deles, comunidades inteiras viviam dentro dessas “bolhas”, onde se encontravam apenas com pessoas que pensavam como elas. Muitas iniciativas contracorrente tentam controlar esse efeito, verificando os factos, expondo os erros ou manipulações grosseiras da verdade. Todavia, é sempre mais rápido e amplo o efeito de algo alinhado com o que concordamos do que a apetência, em geral, para a validação dos factos e assumir o erro.
Antes das redes sociais e de ser acessível a qualquer utilizador publicar o que pretendesse, existiam editores de jornais e de conteúdos televisivos e radiofónicos que validavam fontes, garantiam que os materiais publicados eram corretos e que respeitavam regulamentos e legislação. Essa validação mantém-se nos meios de comunicação social que pretendem manter o rigor, ao mesmo tempo que infinitos conteúdos de consumo rápido e não verificados/validados ou corrigidos competem com esses.
O Expresso destacou anteontem (3 de fevereiro) no podcast “O Futuro do Futuro”, a opinião de especialistas sobre o poder dos algoritmos que “valorizam quem publica de forma constante” o que dá vantagem a quem sempre se moveu nas redes sociais e que adotou esse como o canal mais relevante para a sua comunicação. Muito se tem falado sobre isso a propósito das eleições presidenciais.
Para fugir do eco, tem de ter capacidade para construir de forma crítica a sua opinião, de discutir ideias, esgrimir argumentos, ler e informar-se, ter literacia que permita identificar factos falsos. Tem de saber proteger-se do cyberbullying (agressão via redes sociais, e-mails ou mensagens (ameaças, fotos, vídeos)), dominando conhecimentos fundamentais de segurança online. Ou seja, ter maturidade, ser adulto. Assim, não podia concordar mais com o Parlamento Francês pela coragem e por ter tomado a dianteira de um assunto que não está ainda legislado suficientemente, ao ter aprovado, há uma semana: a proibição de redes sociais para crianças e jovens com menos de 15 anos, a qual se espera que vigore já no próximo ano letivo.
Segundo a RTP, a deputada Laure Miller (autora da proposta) disse na sequência da aprovação: “estabeleceremos um limite claro na sociedade (…) [dizendo] uma coisa simples: as redes sociais não são inofensivas”. No relatório “Década Digital 2025 Eurobarómetro”, da União Europeia, publicado em junho/2025, já se destacava a preocupação e urgência da proteção das crianças online: “mais de 9 em cada 10 europeus afirma que é urgente a ação das autoridades públicas para proteger as crianças do impacto negativo das redes sociais na sua saúde mental (93 %), do ciberassédio e ao assédio online (92 %) e mecanismos de garantia para restringir os conteúdos inadequados à idade (92 %)”.
Nas regras para a criação de conta no Tiktok (“a rede dos miúdos”), 13 anos é a idade mínima, e o mesmo se aplica ao Instagram, WhatsApp (embora tenha começado por ser 16) e Facebook. Miller disse ainda: “os nossos filhos leem menos, dormem menos e comparam-se mais uns com os outros (…) [e] esta é uma batalha por mentes livres”. Porém, já não é tão claro o que vai suceder a quem não cumprir a lei…

