“Tenho o coração tão queimado como este edifício”: emigrante de Anadia perde empresa nos incêndios em Biscarrosse
Sónia Fernandes levou 11 anos a construir a empresa que o fogo destruiu em poucas horas | DR
Sónia Fernandes levou 11 anos a construir a empresa que o fogo destruiu em poucas horas. Quatro dias depois dos incêndios, regressou ao local e encontrou apenas um edifício completamente queimado. “Não consigo criar uma estratégia, não consigo pensar. Para já, estou simplesmente a viver este momento”, desabafa.
O fogo levou-lhe a empresa, mas levou também 11 anos de trabalho, sonhos, investimento e uma parte da vida que construiu em França. Sónia Fernandes, emigrante portuguesa natural de Anadia, voltou na manhã de segunda-feira, 27 de julho, à zona industrial de Biscarrosse, quatro dias depois dos incêndios que devastaram a região de Landes. À sua espera estava um cenário de destruição total.
“Acabei de dar uma volta pelo edifício. Está tudo queimado, tudo”, contou, num vídeo partilhado nas redes sociais, numa tentativa de mostrar a amigos, familiares, clientes e a todos os que a acompanham a dimensão da tragédia que encontrou.
“Foram 11 anos a construir tudo isto, e tudo ficou reduzido a cinzas”, lamenta a empresária, emocionada.
Mas a perda, explica, não se mede apenas pelo valor das instalações, das máquinas ou dos equipamentos destruídos pelas chamas. “Quando estamos completamente envolvidos num projeto, não se trata apenas de material. Há muito tempo e muita energia investidos aqui. Está aqui o conhecimento e a experiência de 20 anos de trabalho”, afirma.
A mulher que habitualmente se apresenta como “positiva, cheia de energia e sempre sorridente” confessa agora sentir-se irreconhecível perante aquilo que o fogo deixou para trás.
“Hoje estou exatamente no oposto disso. Eu sei que tudo vai correr bem, que vamos conseguir resolver isto. Mas, neste momento, não tenho o sol, não tenho energia, sinto um vazio.”
A dor torna-se ainda mais difícil de aceitar porque, poucas horas antes da tragédia, Sónia vivia um momento de entusiasmo. Tinha acabado de receber uma máquina nova e preparava-se para partilhar a novidade com os seus seguidores.
“Na quinta-feira, passei o dia a desembalar uma máquina nova. Ia anunciar-vos esta pequena novidade, estava radiante, nunca imaginei o que iria acontecer. Agora, tudo desapareceu.”
O futuro, neste momento, é uma incógnita. A emigrante natural de Anadia admite não ter forças para pensar no que vem a seguir, nem capacidade para delinear uma estratégia para recomeçar.
“Não sei, não faço ideia do que vem a seguir. Não consigo criar uma estratégia, não consigo pensar. Para já, estou simplesmente a viver este momento.”
E é então que surge a frase que melhor traduz a dimensão da dor: “Tenho o coração tão queimado como este edifício e tudo o que estava lá dentro.”
Apesar da devastação, Sónia tenta agarrar-se à esperança. “É difícil, mas vai ficar tudo bem”, garante, enquanto agradece as inúmeras mensagens de solidariedade que tem recebido de familiares, amigos e clientes.
“Isto vai resolver-se, mas vai levar tempo. Vai levar tempo.”
O incêndio que atingiu Biscarrosse, na região de Landes, obrigou à retirada de mais de 23 mil pessoas e devastou cerca de 3.600 hectares, tendo destruído 198 edifícios e habitações. Entre as vítimas da tragédia estão também portugueses e luso-descendentes que vivem e trabalham na região, confrontados agora com a difícil tarefa de reconstruir as suas vidas depois da passagem das chamas.

