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Quem é que nos protege do Arruda, quando ele nos quiser tirar mais do que malas?

25 de janeiro de 2025 às 13 h37
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Miguel Arruda é um deputado do Chega eleito pelo círculo dos Açores, o que lhe garante um lugar na Assembleia da República (AR), a casa maior da Democracia. Sendo um dos 230 deputados que tomaram posse em março do ano passado, é parte do órgão legislativo do Estado Português e do segundo órgão de soberania da República Portuguesa. Esta semana veio a público que, alegadamente, este deputado aproveitava as suas deslocações para roubar bagagens nos aeroportos de Lisboa e de Ponta Delgada. Arruda atuaria de acordo com um esquema pensado e previamente preparado: levava sempre consigo, nas viagens, uma mala de maiores dimensões; depois, no tapete das bagagens das chegadas recolhia duas malas, a sua e outra mais pequena. Em seguida, dirigia-se à casa de banho do aeroporto e escondia a mala mais pequena dentro da sua, maior.
Os vídeos de vigilância mostram-no, por diversas vezes, a entrar com duas malas na casa de banho e a sair só com uma. Nas buscas domiciliárias, a PSP encontrou várias malas com objetos no interior. O deputado teria uma conta numa plataforma de venda de roupa em segunda mão, onde alegadamente vendia os artigos que encontrava nas malas furtadas. Essa conta (apagada há uns dias) tinha o nome dele, o seu ano de nascimento e o email associado seria o mesmo que o deputado entregou ao partido. No entanto, Arruda declarou-se inocente. “Durmo descansado e estou de consciência tranquila”, garante. Tendo sido constituído arguido por suspeita de furto, desfiliou-se do partido – para o “proteger”, explicou – mas vai continuar no Parlamento. Acredita que “tem condições para se manter na Assembleia da República” e vai passar a deputado “não inscrito” em grupo parlamentar, ou seja, independente.
A postura de Miguel Arruda tem estado sempre alinhada com os princípios do partido que o elegeu para a AR. Sempre pronto a fazer declarações sobre crime e insegurança e muito crítico da impunidade dos criminosos, Arruda defende a necessidade de “arrumar a casa”, quando fala dos emigrantes, que diz serem os responsáveis pelo aumento da insegurança e da criminalidade em Portugal. Este foi também o deputado que se referiu a Mário Machado como um “preso político”, na sequência da sua condenação por incitamento ao ódio e à violência, por defender num post público de uma rede social a “prostituição forçada das gajas do Bloco”. Quando questionado sobre se tem condições para continuar como deputado, Arruda invocou o Estado de Direito, que ele e o partido que o elegeu tanto se esforçam por destruir. Lembrou – e bem – que “uma pessoa só é julgada e condenada no sítio próprio, perante um juiz, não é na praça pública”. André Ventura, que tem na falta de seriedade dos políticos um dos pilares do seu argumentário político, também tentou virar o bico ao prego, dizendo que o seu partido “foi implacável” nesta situação, mostrando que é “diferente dos outros”.
A AR é constituída por uma câmara de deputados eleitos por sufrágio universal direto, que representa todos os cidadãos portugueses: age em nosso nome e é responsável perante todos nós. Esta representação inclui os não eleitores, os eleitores que não votaram e aqueles que não deram suporte eleitoral aos Deputados eleitos. É, ainda, o órgão perante o qual o Governo tem de responder: são os deputados que fiscalizam a atuação do Governo. Arruda desfiliou-se, mas vai continuar como deputado independente – o que é ainda pior, porque agora vai defender o intolerável fora do círculo onde o esperamos ver circunscrito. A preocupação de Miguel Arruda é proteger o partido que ameaça diariamente a Democracia que permitiu elegê-lo. Mas quem é que nos protege do Arruda, quando ele nos quiser tirar mais do que malas?

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