diario as beiras
Coimbraopiniao

Pela rota da seda: Vale de Wakhan e a Hospitalidade Interna Bruta

25 de outubro de 2021 às 17 h01
0 comentário(s)

Foto: José Luís Santos

O vale de Wakham é uma zona inóspita do Tajiquistão ainda pouco aberta ao mundo por a autoestrada do Pamir em Khorog seguir para norte, deixando assim este extremo leste do país com menos contacto com estrangeiros. Foi por essa razão que decidi aventurar-me por aí mesmo, continuando a bordejar a fronteira com o Afeganistão até me despedir do rio Panj. Não há transportes públicos, e poucos são os veículos que cruzam velhas estradas de terra mal batida, por vezes esbarreirada pelas bofetadas que a mão dura do Inverno lhe dá.

As crianças ainda saem à rua quando ouvem um jipe a aproximar-se e correm ao meu lado a saudar-me com um adeus que me faz o dia sorrir logo pela manhã. Tanta autenticidade, ingenuidade, pureza, bondade e hospitalidade juntas que me fazem sentir o homem mais rico de um mundo em que o dinheiro seria algo insignificante. Como esquecer tão belos momentos em que quase nada se diz por palavras, mas que um olhar e uma expressão dizem tudo numa linguagem corporal que derruba qualquer fronteira?

Ahmed para o jipe para darmos subir até à fortaleza Qah Qaha, umas ruínas que remontam ao séc. II a.C., produto de uma época de florescimento da rota da seda, servindo de proteção para as caravanas oriundas da China e que seguiam por este desfiladeiro a caminho do Afeganistão ou da Índia ao longo deste corredor de Wakhan. A paisagem envolvente absorveu-nos a atenção, de tão soberba que era. Daquele alto, desenhava-se perante mim uma linha verde sem princípio nem fim, que acompanha o leito do rio. Era o vale fértil, sustento do povo tajique e afegão, com os seus campos a brotarem o fruto de meses de esforço de quem trabalha estas terras a partir da Primavera.

A vida continua, e a estrada também. Uns quilómetros mais à frente não resistimos ao jogo de voleibol que estava a decorrer num campo que, por mais tosco que fosse, tinha um pano de fundo de beleza imbatível, com as montanhas altaneiras afegãs a dominar a esmagar a imagem que tinha diante de mim. Ali se encontrava um grupo de amigos para se exercitarem no fim de tarde e, com os seus parcos meios, davam azo ao seu desporto favorito. Fomos logo convidados a jogar com eles. O suor escorria, os ânimos exaltavam-se e os gritos de raiva ou de euforia pelo ponto que se perdeu ou se ganhou ecoavam pelo vale. Aqui a vida passa assim, leve e natural, sem muitos constrangimentos a que somos muitas vezes votados no Ocidente. Quando saírem dali, regressam às suas casas, feitas de adobe, uma mistura de palha com lama que é o cimento natural que a natureza lhes dá. Aqui não havia rede de telefone, imagino que de internet também não.

A riqueza deste território não se fica por aqui. Seguimos caminho e o condutor sobe a montanha, presenteando-nos com outras ruínas da fortaleza de Yamchun, uma construção imponente do século III a.C. que, no alto dos seus 3000 metros de altitude, vigia todo o espaço que o olhar alcança. Pouco acima, chegamos às águas termais de Bibi Fatima, um dos pontos de interesse para quem procura relaxar o corpo depois de muitos quilómetros acumulados em estradas que parecem saídas do solo lunar.

Chegamos ao fim do dia a Vrang, onde ficámos numa casa de campo. A luz do dia já se tinha despedido de mim, mas ainda fui dar uma volta por aqueles campos verdes, algo a que já não estava acostumado há muito tempo. Passo por um casal de camponeses de muitos poucos recursos, que me sorriem e levam a mão ao bolso para me oferecerem duas maçãs acabadas de apanhar.

A riqueza humana conta, e muito, e o vale de Wakhan tem uma Hospitalidade Interna Bruta invejável.

 

Autoria de:

Deixe o seu Comentário

O seu email não vai ser publicado. Os requisitos obrigatórios estão identificados com (*).


Últimas

Coimbra

opiniao