Os primeiros passos (parte 3) Portugal–Década de 90
A ideia de quatro jovens de 14 anos se meterem a pedalar pela Estrada Nacional 1 de Condeixa para Coimbra poderia ter-se saldado num pico de audiências para aqueles órgãos de informação que vivem à custa da desgraça alheia. Apesar de estar a correr tudo bem nos primeiros metros, enquanto seguíamos por um caminho paralelo, esse estado de graça acabaria cedo. Foi o momento em que não tivemos outra escolha senão pedalar pela tenebrosa estrada principal.
O medo instalou-se quando um veículo pesado, conduzido por algum motorista que não só ia com pressa como também indicava que tinha acordado muito maldisposto fez questão de fazer soar muito ruidosamente a potente buzina do seu veículo enquanto nos passava a rasar em excesso de velocidade. Foi o momento em que percebemos que tínhamos ido longe demais, e que essa decisão insensata nos poderia ter saído demasiadamente cara. Mesmo assim, sentimo-nos num ponto sem retorno, e continuámos até à Lusa Atenas.

Os nervos dissiparam-se quando descemos até às margens do Mondego, e o passámos pela ponte Santa Clara. A Avenida Emídio Navarro era-nos já familiar. Era a nossa porta de entrada quando aqui desembarcávamos no apeadeiro do Parque e nos dirigíamos sofregamente para a tão famosa quanto movimentada baixa para visitar alguns monumentos, comprar moedas antigas ou mesmo ir à feira de velharias na Praça do Comércio.
Quando nos começamos a sentir à vontade, baixamos a guarda, e é aí que as coisas acontecem. Um de nós sofreu uma queda aparatosa quando, ao fundo dessa mesma avenida, as rodas da bicicleta se prenderam nos carris ferroviários que a atravessavam e foi projetado para o chão. Felizmente, não vinha nenhum veículo atrás. Já contra as nossas próprias expetativas, chegámos relativamente sãos e salvos à nossa Lousã poucas horas depois.
Aprendemos, parcialmente, a lição de que há loucuras que não valerão a pena fazer se quisermos andar por cá mais uns anos. Digo que não evoluímos de todo visto que demos posteriormente azo a outras histórias que tiveram um desfecho também no limbo entre uma linha que temos sempre dificuldade em traçar em algumas coisas que fazemos na vida.
Chegávamos aos 16 anos de idade e as nossas asas queriam bater mais forte. Estávamos a crescer e queríamos ir para mais longe pois Coimbra já se revelava tão pequena quanto próxima para nós.
(continua)

