Opinião: Trump V2.0? Trump logo se V(ê)!
Não decidimos nada porque não temos direito de voto, mas envolvemo-nos com tanto ou mais entusiasmo nas eleições para a Presidência dos Estados Unidos da América (EUA) do que em muitas daquelas que ocorrem no nosso Portugal. Porque será? Mais do que o impacto directo que elas possam ter na vida dos Portugueses e mais que viver o “Sonho Americano”, é certamente porque a maioria de Nós reconhece nos EUA uma importância ímpar para o funcionamento equilibrado e seguro de todo o Mundo.
No passado dia 5 de Novembro os EUA foram chamados às urnas e falaram de forma suficientemente clara. Aliás, bastante mais clara que aquilo que se poderia esperar e indiscutivelmente mais clara que aquilo que as sondagens divulgadas pelos media faziam crer. Donald Trump é o Mister President pela segunda vez e agora com poderes redobrados, tal como afirmado pelo próprio: “os republicanos conquistaram a Casa Branca, recapturaram o Senado e agora, a partir de hoje, recapturaram a Câmara”. A grande questão que se coloca agora é se realmente Donald Trump, com poderes redobrados, é a pessoa certa para liderar o País que nos habituámos a ver liderar o Mundo. Equilíbrio não é aparentemente a sua característica mais vincada.
A chegada de Donald Trump ao poder assenta, de acordo com as suas principais promessas eleitorais, em baixar impostos, aumentar as tarifas para bens importados, deportar imigrantes ilegais e resolver rapidamente a guerra na Ucrânia. No contexto Europeu no qual, enquanto Portugueses, nos inserimos podem preocupar-nos, acima de tudo, a consequência do aumento das tarifas para os bens importados pelos EUA e a forma “pensada” para terminar com a guerra na Ucrânia. Sobre este último ponto muito se tem dito sobre o que acontecerá. O cenário mais comentado aponta para um forçar de entendimento entre a Ucrânia e a Rússia, muito motivado pelo “fechar da torneira dos apoios à Ucrânia”. Se resolve o problema? Pode até resolver e é impossível não concordar que importa terminar com esta guerra, mas se a solução for forçar os invadidos a ceder do seu território a troco da Paz, faz-me achar que no final é só inglório todo o sofrimento e sacrifício a que foi e está a ser sujeito o povo Ucraniano. No contexto da segurança, há ainda a considerar que Donald Trump, por várias ocasiões no seu primeiro mandato, se mostrou crítico da composição e funcionamento da NATO, ameaçando retirar o País desta Organização. Mais recentemente, veio a público afirmar que sob a sua presidência, os EUA não defenderiam membros da NATO que não cumprissem os objectivos de despesa da Aliança. É expor ao Mundo, diria eu de forma desnecessária, a fragilidade de uma Aliança que terá sido até hoje um dos maiores garantes da Paz. Não que não entenda as motivações inerentes a tais ameaças. Mais porque acho que a este nível os assuntos se devem resolver em sede própria. Assim não sendo, o interesse parece ser só fazer notícia.
Falo sobre segurança porque, sem ela, a economia e o seu funcionamento assumem um papel de somenos importância. Vamos partir do princípio que Donald Trump resolve todos os cenários de guerra existentes no planeta: em termos económicos o que é que podemos esperar?
Trump na sua versão 1.0 colocou o Mundo em alvoroço com as medidas que definiu em campanha eleitoral. Medidas que, em alguns casos, não viram qualquer sequência prática quando se tornou Presidente. É o tipo de líder que gosta de se fazer falar através da polémica das suas palavras. Na versão 2.0, retoma o tema das tarifas a aplicar sobre os produtos importados. Os EUA são o 4º maior mercado em termos de destino das exportações Portuguesas. Se considerarmos adicionalmente as exportações que ocorrem de forma indirecta, ou seja, com outros países (principalmente da Europa) como intermediários (por exemplo, os têxteis que circulam por Espanha ou os componentes da industria automóvel pela Alemanha), o impacto poderá ser significativo. Mas para este tipo de bloqueios ser significativo para Portugal, para a Europa e para o resto do Mundo, é impossível não o ser simultaneamente para o EUA. É verdade que tais medidas poderão beneficiar a produção interna do País, mas numa economia aberta e que se afirma como a maior economia do Mundo, passar a viver fechado sobre si mesmo não é uma hipótese. Com uma economia crescente e com mais recursos disponíveis, como Trump promete, a produção própria do País não dará cobertura à procura e a inflação é uma consequência óbvia. Trump também sabe isso. Poderá até aumentar determinadas tarifas, em particular na sua “guerra” com os produtos vindos da China, mas acredito de forma convicta que não irá muito além disso.
Jamais Trump will “Make America Great Again” se a fechar para si só. Se o Great não for assim tão Great, os Americamos saberão dizer-lhe isso mesmo.
*Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.
