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Opinião: Terá a passagem de uma estrela esculpido o nosso sistema solar?

19 de dezembro de 2024 às 11 h17
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No séc. XVIII, Imanuel Kant, na sua obra «História Natural Universal e Teoria dos Céus», Pierre-Simon de Laplace, na obra «Exposição do Sistema do Mundo», e Emanuel Swedenborg, em «Os Principia ou os Primeiros Princípios das Coisas Naturais», propuseram a teoria segundo a qual o nosso sistema solar se formou a partir de uma nebulosa em rotação — o pobre do Swedenborg é, geralmente, ignorado.

Outras teorias se seguiram, claro. Uma delas, a teoria da maré, foi proposta por James Jeans em 1919 e ganhou de imediato vários defensores. Segundo Jeans, o sistema solar ter-se-ia formado devido à passagem de uma estrela que interagiu com o nosso Sol. Nessa passagem, devido aos efeitos da gravidade, formou-se uma enorme maré no Sol, maré essa tão alta que acabou por resultar num enorme filamento a ser arrancado. Esse filaments dividiu-se depois em gotículas, cada uma delas resultando num planeta orbitando em torno do Sol.

A teoria parecia simples e intuitiva mas não sobreviveu. A partir dos anos 60, com Viktor Safronov, Peter Goldreich e William Ward regressámos à ideia do séc. XVIII que, após muitas outras contribuições, nos trouxe à moderna teoria da hipótese nebular que, apesar de tudo, ainda encontra dificuldades.

Hoje, conhecemos oito planetas que orbitam o Sol, quase todos com satélites, vários com anéis, uma cintura de asteroides, uma cintura de Kuiper, muitos cometas, e muitos e muitos outros pequenos objetos, alguns «meio perdidos», que não encaixam bem em nenhum destes grupos. Tendo os planetas e demais objectos se formado num disco em rotação em torno do Sol, não nos surpreende que todos andem à sua volta no mesmo sentido e a maioria em órbitas bastante circulares. Porém, há várias órbitas que são bastante excêntricas, ou seja, muito elípticas, havendo algumas onde os objectos se movem até em sentido contrário.

A partir dos anos 90 começou a concluiu-se que os gigantes planetas Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno se moveram bastante desde a sua formação, há cerca de 4600 milhões anos, não estando hoje no sítio onde se formaram. Nesse movimento, foram espalhando as órbitas dos objectos mais pequenos, como os asteroides e os objetos da cintura de Kuiper, criando as muitas órbitas estranhas que hoje se observam.

Claro que, como seria de esperar, por muito melhor que uma ideia nova possa ser, comparada com a antiga, há sempre dificuldade em explicar alguma coisa. Por isso mesmo, nos últimos anos, tem-se vindo a discutir a possibilidade de existir ainda por descobrir mais um planeta no nosso sistema solar.

Essa ideia não é nada fácil de aceitar e é aqui que, mais de cem anos depois, entra de novo a teoria da maré. Embora não tenha conseguido explicar a formação do nosso sistema solar, a ideia por detrás teoria da maré pode ainda conseguir explicar alguma coisa.

E é precisamente isso que Susanne Pfalzner, do Centro de Supercomputação de Jülich, na Alemanha, e seus colaboradores exploram no seu mais recente trabalho publicado na prestigiada revista Nature Astronomy. Basta que uma estrela com 80% da massa do nosso Sol tenha passado a quase 4 vezes a distância de Neptuno ao Sol de nós numa inclinação de 70° para que se consigam replicar as órbitas que hoje observamos. Como no eterno movimento de toda a nossa galáxia pelo menos 140 milhões de estrelas semelhantes ao Sol também já tiveram passagens próximas de estrelas, a ideia é bastante interessante e uma boa alternativa à hipótese de ainda nos faltar descobrir por cá um nono planeta. Tudo o que é velho é novo outra vez.

 

Autoria de:

Nuno Peixinho

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