Opinião: Só uma revolução sociocultural pode contribuir para salvar (as sociedades n)o planeta
Nas sociedades contemporâneas, somos confrontados com uma série de desafios sócio-ecológicos que colocam em risco não apenas a Natureza, mas também a nossa própria existência. Não enfrentar esta realidade que se nos apresenta pode resultar na perda das condições naturais essenciais para a existência da vida humana no planeta. Não reconhecer essa realidade é cruel e perverso; é tratar os seres humanos como dispensáveis. Talvez esse seja o nosso destino comum?
Como tenho vindo a sublinhar, a perda de biodiversidade, a degradação ambiental e as alterações climáticas são fenómenos que não podem continuar a ser ignorados exigindo respostas urgentes e eficazes. No entanto, essas respostas, além de ambientalmente competentes, exigem soluções assentes numa transformação sociocultural mais ampla que vá ao cerne das nossas crenças, valores e comportamentos, aos estilos de vida, mas sobretudo ao cerne dos nossos modos de vida e organização social.
Para que essa revolução seja possível, não é suficiente adotar tecnologias mais limpas, ou cumprir a promessa de acabar com os pesticidas (batalha que a Europa irresponsavelmente não conseguiu vencer esta semana face a interesses industriais instalados) para caminhar para um novo modelo de agricultura respeitadora do ambiente, ou implementar políticas de conservação ambiental e regeneração. Embora essas ações sejam importantes, são apenas parte da solução pois o verdadeiro desafio reside em transformar a maneira como nos relacionamos com o mundo natural e entre nós mesmos.
Atualmente, os modos de vida predominantes nas sociedades modernas estão profundamente enraizados em paradigmas de consumo excessivo, individualismo e exploração e exaustão dos recursos naturais. A manutenção e até mesmo o incentivo a estes padrões de comportamento não refletidos não apenas exacerba os problemas ambientais, mas também contribui para a desigualdade social e a exclusão de vastas camadas da população. Portanto, uma verdadeira transformação, uma transformação que nos permita enfrentar os atuais problemas socio-ecológicos, só será alcançada se reconhecermos a necessidade de repensar e reestruturar os fundamentos da nossa sociedade humana.
Sabendo nós como as estruturas sociais e culturais são profundamente lentas a mudar, só uma revolução sociocultural pode contribuir para salvar (as sociedades n)o planeta. As mudanças requeridas nos valores que orientam as nossas escolhas e ações, são profundas – de uma sociedade assente no consumismo devemos passar para uma cultura de sustentabilidade, solidariedade e empatia – assentes na qualidade em vez de na quantidade, promover estilos de vida mais conectados com os ritmos e ciclos da natureza assentes no paradigma do cuidado em vez de no da exploração – o que exige transformação de sistemas económicos e políticos – , evidenciando o bem-estar dos coletivos, promovendo a justiça social e a equidade.

