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Quadro de família

18 de agosto de 2026 às 19 h00

Robert Redford celebraria 90 anos a 18 de agosto de 2026. O lendário ator estreou-se como realizador com “Gente Vulgar”, obra que em 1981 arrecadou o prémio máximo da Academia, o Óscar de Melhor Filme.

 

É raro duas personagens partilharem o ecrã de Gente Vulgar; quando tal acontece, estão quase sempre de costas voltadas ou envolvidas noutro tipo de desconforto. A verdade é que nem sempre a vida dentro de casa é como neste drama familiar. Porém, muitas vezes parece-nos que não vai passar disso.

Beth (Mary Tyler Moore) e Calvin Jarrett (Donald Sutherland) tiveram dois filhos: Buck (Scott Doebler) já morreu, e Conrad (Timothy Hutton) tentou tirar a própria vida. A gente que o título apresenta vive cercada por uma barreira de sentimentos, sobretudo desde a perda fatal: estes familiares foram enclausurados numa jaula invisível que os impede de falar, de ser eles próprios, de se permitirem amar uns aos outros, como a essência humana prevê.

A história dos Jarrett não é contada de forma banal, muito menos é leve. Gente Vulgar é um drama familiar carregado que, apesar da mudez emocional dos seus intervenientes, fala apenas de si. Ao mesmo tempo, a premissa resulta de os seus membros não comunicarem o suficiente.

 

“Naquela que é a primeira obra do ator Robert Redford enquanto realizador, estamos perante uma espécie de “Os Sopranos” sem mafiosos”

 

O pai de família também sente os filhos a ir embora e não consegue fazer nada, e o protagonista (Conrad) também recorre a um psiquiatra, decisão com base nessa infinita guerra de tentar ser compreendido e de conseguir ter mais controlo sobre a sua vida.

A naturalidade com que Gente Vulgar decorre advém de os atores trabalharem no luxo de se poderem enganar nos diálogos; ou então, e essa é uma possibilidade, enganam-nos tão bem que nem damos conta do quão bons estão a ser. Isto acontece porque, ao contrário de boa parte das narrativas audiovisuais que nos chegam, em que as personagens são criadas de forma uniforme e equilátera, aqui são dotadas das complexidades que um ser humano requer, sobretudo da incapacidade de saber o que quer. A dúvida reina a toda a hora, e a incerteza perante a existência dos sentimentos alheios é o motor que dá cavalagem à narrativa.

Num dos momentos-chave do filme, a família está a fazer uma sessão fotográfica. Vários quadros de família são captados. Entretanto uns entram e outros saem de cena, dando origem a novas combinações para os retratos. Até que mãe e filho ficam a sós. Neste instante a câmara deixa de funcionar, e nunca se chega a registar a imagem da dupla única, agora que Buck morreu. Redford sugere, de forma subtil, a impossibilidade de conexão naquela relação que, assim e por isso, simplesmente não existe.

 

“O drama familiar é o género mais real de todos: ora porque todos quanto vivemos estamos envolvidos num, ora porque, à falta dele, a fatalidade seria ainda maior”

 

Logo de seguida, já na cozinha, Beth deixa um prato cair, que por conseguinte se parte. Ao olhar para ele, anuncia: “Acho que pode ser salvo.” Não temos dúvidas de que a mãe se refere ao filho Conrad e não ao prato, mas temos a certeza de que nunca o vai admitir, quanto mais dizer.

Diria que qualquer pessoa se pode identificar com Gente Vulgar, seja com o seu lado esperançoso, seja com o fatalista; basta ver o filme. Até porque o drama familiar é o género mais real de todos: ora porque todos quanto vivemos estamos envolvidos num, ora porque, à falta dele, a fatalidade seria ainda maior.

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