Opinião: Ser professor
Há poucos dias celebrou-se em todo o mundo o Dia do Professor marcado pela reconhecida, e já aqui falada, falta de profissionais que se dediquem a tempo inteiro à profissão docente.
Aproveitou o governo de Portugal para lançar uma campanha de sensibilização suportada pelo título desta crónica, acompanhada de um guião que pretende mostrar as vantagens de por aqui enveredar.
O ministro Fernando Alexandre reconhece -e bem- que é um drama nacional a quantidade de jovens que ficam sem aulas pela falta de quem assuma a responsabilidade de os formar.
Mas a decisão de ser professor, nos tempos que correm, não é coisa fácil. Ao longo dos últimos vinte ou trinta anos, a profissão foi sendo paulatinamente despojada da sua importância social e do prestígio que a percorreu durante dezenas e dezenas de anos.
Não se trata apenas de falar de salários, embora essa componente não deva nem possa ficar fora da equação. A progressiva universalização do ensino foi portadora de uma progressiva forma de ver os professores como alguém que chateia, que perdeu autoridade, que não é visto socialmente como um elemento-chave da formação dos mais novos.
A cada vez mais comum passagem da responsabilidade da educação das crianças e dos jovens dos pais para os professores não foi acompanhada pelos Estados de alterações das regras de funcionamento dos sistemas educativos, retirando autoridade ao corpo docente e colocando a Escola na ponta de baixo da formação dos cidadãos. Isto é: os professores deixaram de ser importantes para passarem a ser vistos como pouco qualificados perante as profissões que de facto “interessam”: as que se ligam à industrialização, ao desenvolvimento económico, à inovação…
Há alguns anos, numa escola onde trabalhei, havia um menino com sérios problemas cognitivos, incapaz de progredir ao ritmo que os pais seguramente quereriam. Era a frustração da esperança do filho único. Em conversa com o pai, que fora meu aluno já, e abordando a melhor forma de encontrar algum futuro para a criança, o pai saiu-se com esta pérola: “o senhor doutor não me diga que nem para professor ele serve”.
De um texto da jornalista Cátia Barros, respigo o seguinte extrato: ”formaram-se [0s estudantes que acabaram o ensino superior], sobretudo, na área das ciências empresariais, administração e direito; engenharia, indústrias transformadoras e construção; e saúde e proteção social. A área da educação passou a ser das menos escolhidas”.
É esta a realidade da situação. Estou obviamente de acordo com a necessidade de alterar o Estatuto da Carreira Docente, de modificar o tipo de concursos que, na sua essência, tem já dezenas de anos, de melhorar os salários, de incentivar quem tem de ir para longe da sua residência habitual, de fazer campanhas de sensibilização para atrair mais gente para os cursos de acesso à docência. Mas não pode ser esquecida ou, o que é pior, ignorada a exigência da modificação das regras do quadro de funcionamento dos estabelecimentos de ensino, criando uma maior responsabilidade dos pais na educação, na aprendizagem, na tutela dos seus próprios filhos, incentivando os professores e os alunos a trabalharem com regras de relacionamento bem claras, um pouco na ideia de que cada um está ali para desempenhar um papel e que esse papel não pode confundir uns com os outros.
Eu sei que esta não é matéria para o ministério da Educação, que apenas para tal pode contribuir. Mas é uma exigência social, se quisermos que os progressos das sociedades democráticas comecem logo de menino.
Nunca esqueço aquela frase que ouvi um dia a uma senhora professora do ensino primário: felizmente temos médicos, temos engenheiros,, temos advogados, porque houve um professor que os formou. Usemos o plural: houve professores…
Não haverá quem queira ser professor se tudo isto não se concretizar, seguramente ao longo de muito tempo, mas com pequenos e solidificados passos. Queremos continuar a ter médicos, engenheiros, advogados, mecânicos, pintores de construção civil, ou canalizadores. Queremos uma sociedade democrática com cidadãos bem formados civicamente e com competência profissionais reconhecidas.
Já referi nestas páginas que na última colocação dos candidatos ao ensino superior as vagas existentes para acesso aos cursos que se destinam primordialmente ao ensino ficaram esgotadas. É uma gota de água neste universo de dificuldades. Haja esperança!
