Opinião: Revendas & tecnologia: juntas por uma boa causa
A minha Tia-avó Júlia criou, nos anos 50, um negócio de venda de roupa em segunda mão. Tirando partido de uma oportunidade –uma boa rede de contactos, senhoras com um bom nível de vida, interessadas em substituir as roupas e vender as usadas –e revendia roupas, de qualidade e em muito bom estado, em feiras ou na sua própria casa. A Júlia teria agora 110 anos mas o seu negócio está hoje na moda, alimentado pela consciência ambiental dos jovens e pelo combate ao desperdício.
E, claro, pela tecnologia, que permite a mediação do negócio que antes se fazia na base da confiança e proximidade e hoje se baseia em tudo o que aproxime o cliente da peça: fotos, vídeos, marcas sonantes, descrições dos materiais, preços, e os apelos do marketing associado às apps e às redes sociais, ie, saldos e rebaixas, históricos de compras, falta de stock (“Ups, o artigo já foi vendido!”), cupões de desconto e recomendações.
A Vinted e a OLX, serão, talvez as plataformas mais conhecidas, sendo que a OLX revende de tudo e a Vinted é especializada em roupa, sapatos e acessórios. A Micolet e a Wallapop são concorrentes da Vinted. A Micolet recolhe em casa, avalia as peças, propõe um valor a quem pretende vender e, existindo acordo, as peças são colocadas no site, com um fee de 25% cobrado sobre o preço de venda do produto, exceto no caso de produtos de baixo preço ( 70%). Existem muitas peças novas, ainda com etiqueta.
Estes marketplaces de revenda tiram ainda partido da qualidade intrínseca das marcas que revendem: a Wallapop tem um vídeo “Wallapop – Thank you, brands” onde agradece à Miele (“por desenhar eletrodomésticos que duram 20 anos” quando outros duram apenas 12 ), à Levis (“por fazer moda que não passa de moda”) e à Lexus (por verificar, minuciosamente, cada milímetro dos seus veículos). A qualidade dos produtos e a sua extensa vida útil tornam hoje comum que se vendam e revendam com o lema “Old is the new new “ (“O velho é o novo novo”).
E as marcas que vendem novo? A concorrência destes marketplaces fez com que as marcas se reinventassem: é hoje possível entregar peças usadas em várias lojas, recebendo um vale para uma compra de novas peças, para além existir a possibilidade de vendas em 2.ª mão da própria marca. O que nos automóveis é uma regra (“venda de usados”), por corresponder a um investimento significativo, é agora tendência em compras de baixo valor, permitindo reduzir o desperdício e controlar os recursos gastos para produzir roupas fast-fashion, claramente fora da tendência.
Tudo com o apoio da tecnologia e dos dados. Quem ganha com a nossa consciência climática são maioritariamente as aplicações intermediárias do negócio. Ainda assim, repensar e reduzir o que se compra e procurar alternativas parece um bom mote para a leveza do Verão! O planeta agradece! Boas férias!
