diario as beiras
opiniao

Opinião: Racionalidade política precisa-se

16 de abril de 2025 às 09 h26
0 comentário(s)

Há um país que nos habituámos a considerar como o mais poderoso do mundo, um país cuja influência política e, sobretudo, cultural era também tida como dominante. Eis senão quando, pouco a pouco, o comportamento aparentemente irracional do líder desse país tomou conta do nosso quotidiano, primeiro entranhou-se e depois banalizou-se.

É penoso observar o apego dos comentadores mediáticos, a tentar desesperadamente encontrar um motivo político ou económico para esta ou aquela frase, para esta ou aquela decisão, tentando identificar nas entrelinhas um sentido, um fundo remoto de racionalidade política. Desistam por favor, a bem da nossa e da vossa saúde mental. A não ser que leiam as raras e incisivas entrevistas de Steve Bannon a esse propósito, aí sim, pode ser que tenham sorte e descubram as razões mais profundas, as razões que se ocultam na sombra. E não são boas, nem para nós, nem para os próprios norte-americanos.

Têm a ver primordialmente com a necessidade de fazer bluffs sucessivos e assim conseguir que as elites multimilionárias ganhem milhares de milhões em poucos minutos, comprar barato e vender caro. Mas já agora, e a talho de foice, vamos arrasar com o pouco que resta das classes médias e pobres. Se a guerra vier pelo meio, tanto melhor. Há sobeja carne para míssil no mundo, como é fácil atestar em Gaza.

Há quatro meses, decorria ainda a campanha eleitoral entre Trump e Harris e o líder parlamentar do partido que governava em Portugal afirmou publicamente que, se fosse norte-americano, estaria dividido entre votar num ou na outra. Pode parecer ridículo, mas as notícias revelaram-no na altura. Hoje, talvez já ninguém se lembre, por isso é bom recordá-lo aqui, a poucas semanas da campanha eleitoral mais indesejada de todas.

A irracionalidade política banalizou-se ao extremo, mas as cidades, com a sua organização, os seus sistemas funcionais e a sua capacidade de integração social, ainda constituem pequenos oásis de propósito político no meio do aparente nonsense que passou a dominar o mundo. Quando tudo parece ruir na superestrutura, são elas que nos deixam um rasto de esperança, um pressuposto político simples, mas arreigado, que é o que apela ao respeito mútuo e protocolado entre os diversos concidadãos.
Por isso, temos de continuar a defender a manutenção da urbanidade das ruas, das praças, dos parques. Essa urbanidade não é uma condição meramente social, tem muito a ver com a conformação física dos espaços urbanos, tem a ver com a cidade, com a arquitetura, portanto.

A esse propósito, e na senda das minhas preocupações ao longo dos últimos meses, devo dizer que o senhor Ministro das Infraestruturas e da Habitação já autorizou a Infraestruturas de Portugal a preparar o novo concurso para o lanço de alta velocidade entre Oiã e Soure. Só não esclareceu se vai aumentar o preço base da concessão. O que é um mau sinal, pois penso que, se tivesse intenção de aumentar, logo se apressaria a anunciá-lo, e não o fez. Estamos todos em suspense.

E, uma vez que falamos de racionalidade política, será também justo recordar aqui que o Volt, como partido ecologista que se afirma, em carta enviada ao Diretor deste mesmo jornal e num texto que denota cabal compreensão do papel das cidades no combate à crise climática, juntou-se às vozes do atual executivo municipal, do PS, da CDU e do Livre, e defendeu inequivocamente as soluções propostas pelo Plano de Pormenor da Estação Intermodal de Coimbra.

Haja alguma racionalidade política nas cidades, já que no mundo a irracionalidade se tornou banal. Há noventa anos atrás, quando a irracionalidade política infestava as prisões da Gestapo, Hannah Arendt fugiu dela e alojou-se em Nova Iorque. Hoje não a aconselharia a fazer o mesmo.

Autoria de:

José António Bandeirinha

Deixe o seu Comentário

O seu email não vai ser publicado. Os requisitos obrigatórios estão identificados com (*).


Últimas

opiniao