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Opinião: Praxe e Nuvem

15 de outubro de 2025 às 09 h58
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Era uma fria noite de Outono.
Acabado de descer do “eléctrico” na mal iluminada Avenida Dias da Silva, eis que, de súbito, me vejo rodeado por um grupo de indivíduos (mais de uma dúzia!), embrulhados em capas negras, inesperadamente emergindo da escuridão que os escondia.
“O que é pela praxe?” – indagou um dos embuçados, com vozeirão de poucos amigos.
Dada a resposta honesta, logo sacam de tesouras e, à vez, me reduzem a escombros a farta cabeleira inspirada pelos “Beatles”.
“Dura praxis, sed praxis” – e assim tive de resignar-me a sofrer o arraso capilar, por ter tido a ousadia de sair à rua depois do pôr-do-sol, quando tal era então proibido a caloiros e “bichos”.
O chefe da trupe era o temido gigante Chico Brito (de quem me viria a tornar amigo, perdoando-lhe o inestético rapanço, e que, infelizmente já nos deixou).
Na manhã seguinte, depois da triste figura que vi no espelho, fui estrear-me num radical desbaste de máquina zero, para mal disfarçado gáudio do meu barbeiro…
Os tempos mudaram.
Em Coimbra já não há “eléctricos” nem “rapanços”, embora a praxe académica continue a impor determinadas regras. O meu amigo Dux Veteranorum Matias Correia (habitual vizinho na coluna aqui ao lado), faz o que pode para que elas sejam cumpridas sem distorções nem abusos. Mas nem sempre é bem sucedido, como se nota em ajuntamentos ruidosos em certos locais da cidade, onde há improvisados “doutores” que parece pensarem que a integração dos caloiros obriga a vexá-los e a fazê-los entoar frases que soam ainda pior do que o calão boçal com que são construídas…
Felizmente, porém, há louváveis iniciativas de integração na Academia de Coimbra. Em vez de asneirentas manifestações de mau gosto, optam por levar a cabo acções muito meritórias – e, garantidamente, mais susceptíveis de integrar os jovens recém-chegados e de os sensibilizar para atitudes benéficas para eles próprios e para a comunidade.
Vou aqui referir um exemplo, que dá pela feliz designação de NUVEM, que significa Núcleo Universitário de Voluntariado de Estudantes de Medicina.
Trata-se de um projecto pioneiro, que integra estudantes e docentes da FMUC – Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.
A apresentação pública do NUVEM foi feita há dias numa sessão que juntou alunos e professores da FMUC, incluindo o seu Presidente, Carlos Robalo Cordeiro, mas também representantes de diversas entidades convidadas (entre as quais a Ordem dos Médicos, a Liga Portuguesa Contra o Cancro, a Cruz Vermelha Portuguesa, a Cáritas Diocesana, a Associação Integrar e a AAEC – Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra).
Marília Dourado, Professora da FMUC que inspirou e estimulou o grupo, disse como estava orgulhosa dos estudantes envolvidos neste projecto, esperando que ele seja o começo de uma nova maneira de cuidar, mas também de formar e transformar o ensino da Medicina em Coimbra.
Na mesma linha, Guilherme Teles (o estudante que preside ao NUVEM), afirmou que “dar parte do nosso tempo à comunidade é também um tempo de aprendizagem essencial para a nossa formação como médicos”.
O momento alto da tocante cerimónia foi a chamada ao palco dos estudantes voluntários que agora iniciam o trabalho comunitário do NUVEM. Mais de uma centena de raparigas e rapazes avançaram e, simbolicamente, ali mesmo envergaram a camisola do NUVEM, calorosamente aplaudidos por todos os presentes.
Oxalá este belo exemplo seja replicado nas outras Faculdades, nas diversas Escolas do ensino superior, e que venha a tornar-se louvável e generosa praxe coimbrã.
Com “nuvens” assim, Coimbra será sempre terra de céu limpo e luminoso brilho…
E continuará a ser uma lição!

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