“A quem em Maio come sardinha, em Agosto lhe pica a espinha”
O alerta é do padre Rafael Bluteau, autor do primeiro dicionário português, publicado entre os anos de 1712 e 1721. Um ditado que, de certa forma, nos assegura a todos que é seguro nos lançarmos nas festivas sardinhadas do período dos Santos Populares em que nos encontramos.
Domingos Rodrigues, autor do primeiro livro de cozinha impresso em Portugal, Arte de Cozinha, de 1680, diz-nos, no entanto, que a melhor sardinha é a de novembro e dezembro. Um conselho que, nos dias de hoje, podemos estranhar, pois valorizamos este peixe principalmente no Verão, sendo naqueles meses em que deixamos os cardumes multiplicar-se para garantir a sustentabilidade desta espécie.
Uma preocupação que reflete a importância que a sardinha tem nos hábitos alimentares de muitos de nós. A sardinha, de facto, anda à nossa mesa há bastante tempo, mais de 2000 anos.
Durante o período romano, quando Portugal se dividida entre as províncias da Lusitânia e da Galécia, a sardinha era um importante produto com o qual se produzia um molho fermentado muito apreciado, o “garum”. Peixes de pequena dimensão e vísceras de peixes graúdos que eram misturados com consideráveis quantidades de sal e deixados a fermentar em tanques durante aproximadamente 3 meses. O resultado seria uma pasta de peixe cujas camadas mais superficiais, de gordura, seriam altamente apreciadas como tempero. Em Portugal, a região atual de Troia ainda guarda vestígios de um dos maiores complexos de preparação de garum do Império Romano.
Durante o período medieval, a imposição de dias de abstinência de carne pelo Cristianismo iria garantir à sardinha e outros peixes um lugar de grande importância às mesas. Por norma, as vésperas de dias santos eram dias de abstinência e, por isso, o peixe era rei e senhor. Ainda hoje alguns de nós cumprem estes preceitos religiosos durante a Quaresma ou, de forma mais geral, continuamos a preferir o bacalhau para a ceia de Natal, a noite que antecede o nascimento de Jesus.
Nas zonas costeira, a disponibilidade da sardinha fresca permitia o seu consumo mais recorrente, tornando-se um peixe que ia à mesa de todos. D. Afonso V (1432-1481) consumia sardinhas fritas temperados de escabeche de especiarias e sumo de laranja azeda. Em Lisboa, no século seguinte, o consumo seria de tal forma generalizado que o cheiro a sardinhas assadas seria insuportável, a crer nas descrições de visitantes italianos à cidade.
No século XIX vemos este peixe chegar, inclusive, à mesa do rei D. Luís (1838-1889) e D. Maria Pia (1947-1911). Se, por norma, a cozinha francesa dominava nas refeições, em determinados almoços o casal real optava por sardinhas assadas, confirmando a sua popularidade.
Como comida popular e de fácil acesso, no final do século XIX veremos a sardinha ganhar espaço nas festas populares, como a Feira de Agosto no Parque Eduardo VII em Lisboa ou as celebrações dos Santos Populares, que começaram a ter maior expressão nos inícios do século XX.
Desde então, a sardinha ocuparia o lugar de rainha das festas e arraiais.

