Opinião: O Pipy vende exatamente o contrário do que apregoa
Cristina Ferreira é uma das mulheres mais influentes da televisão portuguesa. Com mais de um milhão e meio de seguidores nas redes sociais, a apresentadora é – ou vende ser – uma espécie de símbolo nacional do sucesso feminino: independente, bem-sucedida, bonita, madura e segura na sua pele e na sua idade, é uma mulher de origens humildades, que alcançou o sucesso num meio altamente competitivo e, ainda, muito misógino. Para além de apresentadora de televisão, Cristina é acionista de um dos maiores grupos de media em Portugal e empresária, com negócios que vão da moda aos produtos de beleza, passando por revistas e mega eventos motivacionais. Há uns dias, a apresentadora lançou um projeto sobre o qual ainda pouco se conhece para além do nome – #eusougira – e do primeiro produto: uma “bruma íntima feminina” com o nome “Pipy”. O assunto foi “trending topic” durante vários dias, com várias “famosas” e “influenciadoras” a falar e a recomendar o novo produto (que de inovador pouco tem). Parece um “faits divers” – mas não é.
“Somos mulheres de… Pipy. Na #eusougira somos mulheres livres, com palavra, confiantes e no caminho da felicidade. Este lançamento é uma provocação. É. Uma bruma íntima. Porque o poder está em ti”. Foi assim que Cristina Ferreira apresentou ao mundo a sua mais recente obra: “um novo cuidado para a zona íntima” – à venda em frascos de 30 mililitros, pela módica quantia de 29,90 euros – que opera em cada mulher uma transformação capaz de a tornar na próxima Cristina Ferreira.
O mundo sempre teve uma relação difícil com o corpo das mulheres. A maioria dos problemas que elas sempre enfrentaram – e continuam a enfrentar – está intimamente ligada à sua biologia: menstruação, sexualidade, gravidez, amamentação, saúde reprodutiva, envelhecimento, menopausa. E sempre ao corpo, à objetificação e à pressão constante para as mulheres serem eternamente jovens: magras, frescas, sem rugas, nem sinais de envelhecimento. Absolutamente perfeitas. O que há de “imperfeito” no corpo de uma mulher deve ser escondido ou disfarçado: uma senhora não tem pelos, uma senhora não transpira, uma senhora deve ter muito cuidado para que não haja nenhum acidente com o sangue menstrual. Uma senhora é uma senhora e uma senhora, já se sabe, é perfeita. O que o Pipy vende é exatamente o contrário do que apregoa: a perpetuação de uma certa ideia de vergonha, que sempre foi associada ao corpo e à sexualidade feminina. Não vou falar de questões médicas (como a alteração do pH natural, ou o risco de infeções), que devem ser tratadas pelos especialistas, mas a ideia de perfumar a vulva é vendável porque a maioria das mulheres – e dos homens, claro – compra a ideia de que há alguma coisa de errado com o seu odor natural. Façamos este exercício: se o Cristiano Ronaldo lançasse uma bruma íntima para perfumar o pénis – algo com um nome ridículo como “Pilynha”, por exemplo – e o vendesse como uma espécie de elixir de liberdade, sucesso e autoconfiança, quantos homens é que o comprariam?
Segundo a ONU, apenas metade das mulheres do mundo são donas do seu próprio corpo, podendo tomar decisões livres sobre ele, sem serem alvo de violência ou coerção. Metade das mulheres do mundo não têm acesso a cuidados de saúde sexual e reprodutiva, não têm liberdade para decidir sobre as suas relações sexuais – se querem, quando e com quem – ou se usam métodos contracetivos. A ideia por trás de todos estes problemas é a mesma. É a ideia de que o corpo de uma mulher é um instrumento – ora de controlo, ora de vergonha, ora de prazer de terceiros – mas quase nunca de autonomia da própria. O erro está aqui. Não o tentem perfumar.
