diario as beiras
opiniao

Opinião: Neurofisiologia da espiritualidade

14 de outubro de 2024 às 10 h23
0 comentário(s)

As práticas espirituais são milenares, mas o seu estudo neurocientífico é recente.

Nos anos 70, Francisco Varela, Richard Davidson, Daniel Goleman e outros neurocientistas reconhecidos no continente americano, encetaram contactos com o Dalai Lama e, à medida dos financiamentos obtidos (maximizados após o Prémio Nóbel da Paz em 1989) e das tecnologias disponíveis, iniciaram estudos não invasivos dos cérebros de praticantes de meditação e dos estados transcendentes que estes conseguiam alcançar.

O próprio Dalai Lama estava altamente interessado neste estudo, e a ele dedicou imensas viagens, discussões e conferências.

Os resultados não tardaram. Para além dos cérebros se mostrarem mais jovens, com um córtex mais espesso, mais matéria cinzenta e maior conectividade, revelaram grandes diferenças de actividade durante as práticas meditativas.

Em particular, existia uma maior actividade no córtex frontal e pré-frontal, já conhecidos pelo seu papel na regulação das emoções e raciocínio lógico.

Pelo contrário, grande parte do lobo parietal ficava desactivada. Esta parte do cérebro é conhecida pela coordenação dos movimentos e pelo envolvimento em qualquer actividade externa. Por isso, não admira que se desactive enquanto a pessoa estiver imóvel a viver apenas o presente.

Nessas alturas, porém, uma outra zona do cérebro costuma activar-se. Trata-se do chamado “default network”, situado nas paredes internas dos dois hemisférios e geralmente activo quando, sem fazer nada, apenas pensamos no nosso passado e futuro, ou fazemos julgamentos morais.

Ora, esta área também se encontra desactivada durante os estados de meditação, quando apenas se vive o presente sem qualquer julgamento.

Nas zonas mais antigas do cérebro (ínsula, amígdala, córtex cingulado anterior e estriado ventral), ligadas às emoções e à empatia, os efeitos podem ser diversos, com activações específicas ao sabor das emoções de momento, geralmente satisfatórias.

Outro achado interessante tem a ver com as ondas cerebrais. Nos estados de relaxamento, a frequência das ondas cerebrais tende a reduzir-se, desde os ritmos superiores a 12 ciclos por segundo (ondas Beta) até 8 ciclos por segundo (ondas Alfa) ou mesmo 4 ou menos (ondas Teta e Delta), estas últimas características do sono, mas que aparecem ocasionalmente nas meditações mais profundas. Porém, certos praticantes experientes podem atingir frequências superiores a 30 ciclos por segundo (ondas Gama) durante algum tempo. Sabe-se hoje que esta frequência ocorre ocasionalmente quando existe uma alta concentração, processando várias informações simultaneamente, ou em estados de especial criatividade ou fruição artística.

Os benefícios da meditação, há muito conhecidos, são agora cientificamente evidentes. E podem ser atingidos através de diversas práticas espirituais. Mais recentemente descobriu-se que alguns psicadélicos, em rituais específicos, podem ajudar a saltar etapas e levar directamente aos estados transcendentes. Com tudo isto se abriu um novo capítulo no desvendar do cérebro e da mente. É esse caminho que agora podemos trilhar e partilhar em segurança.

Autoria de:

Pio Abreu

Deixe o seu Comentário

O seu email não vai ser publicado. Os requisitos obrigatórios estão identificados com (*).


Últimas

opiniao