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Opinião: “De Sebentae Estudiorum”

17 de setembro de 2025 às 11 h46
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Quando se começaram a fundar as Universidades na Europa, os livros eram coisa rara. As aulas consistiam maioritariamente na leitura por um mestre de manuscritos raríssimos, daí que, a estes passou a ser-se dado o nome de “Lente”. Cabia ao estudante processar os ditados e fazer os seus próprios apontamentos originando à Postilla ou Apostilha. A Apostilha foi bastante incentivada até à Reforma Pombalina, em 1772, que proibiu o uso destas com o pretexto de “não se consumir prejudicialmente em tão prolixas escrituras o tempo, que mais útil, e suavemente se deve empregar na explicação das lições”. Tal era a força do hábito estudantil que, esta imposição não vincou, e levou à paradoxal proibição do próprio acto de escrever nas aulas pelo Reitor da Universidade: “Para uma vez pôr termo ao progresso de um tão intolerável abuso, mando que de agora e para sempre se desterre e proscreva desta Universidade o pernicioso costume de escrever nas aulas”. A preocupação dos Reformadores Pombalinos era de que as lições seguissem todas um mesmo texto pré-aprovado, chamado de Compêndio, mas que acabou por levar à serventização do Lente à ruminação constante, fixo a um dogma imposto à vírgula sob pena disciplinar e diluído de crítica.

Em 1796, o alemão Senefelder inventou o processo litográfico que permite a cópia dos apontamentos. As Apostilhas, proibidas mas nunca banidas, descobriram então um novo meio de reprodução, mais eficiente. Como era usado um lubrificante no processo chamado de sebo, o folheto untado a gordura passou a chamar-se Sebenta. A Sebenta, então ainda considerada contrabando e um atentado à santidade do Lente, proliferou, sendo elevada à condição de necessidade básica Académica.
Quem preparava a Sebenta era o Sebenteiro, um aluno que por dedicação ou necessidade de um complemento para a mesada, se sentava na fila dianteira absorvendo num acto de transmissão de sapiência dita para escrita. Os outros, nas Coelheiras, ocupavam-se em não ouvir o lente, lendo jornais, partilhando epigramas, fazendo caricaturas, versos, cartas de namoro ou organizando trupes.

Inobstante a maior facilidade do processo de cópia, as sebentas eram ainda coisa rara, e as melhores caligrafias e explicações eram veneradas, policopiadas e guardadas como tesouro de família e passadas de geração em geração. Era esta virtude que muitas vezes virava também o grande pecado da Sebenta. Por um lado, constituía uma ferramenta fácil de reprodução do conteúdo das aulas, por outro, podia transforma-se num portador epidémico de gralhas. Várias gerações de alunos de História da Medicina aprenderam o que eram corvos “Giribites”, invenção do sebenteiro Júlio Condorcet, e que conseguiu infectar o Lente examinador com a gralha, passando doravante o Lente a ensiná-la nas aulas, até ser descoberta a marosca, anos mais tarde.”

Texto de:Redação Diário As Beiras

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