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Opinião: Cultura à beira da morte

28 de outubro de 2024 às 11 h18
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Dizia Ortega Y Gasset que “a cultura é uma necessidade imprescindível de toda uma vida, é uma dimensão constitutiva da existência humana, como as mãos são um atributo do homem.”

Anda o mundo entretido com as vantagens da inteligência artificial (IA), considerada a 4a revolução industrial. São inegáveis alguns dos benefícios, mas inquestionáveis muitos dos riscos. Desde logo a imensa ameaça para criadores, artistas e autores.
Muitos modelos de IA são treinados, usando vastos conjuntos de dados, que frequentemente incluem músicas, imagens, textos e outros conteúdos criativos retirados da internet. Esse material, criado por artistas e autores, é incorporado nos sistemas de IA sem o consentimento ou remuneração dos criadores originais, o que representa uma forma de uso não autorizado de suas obras. Uma violação descarada das regras autorais.

Atualmente, artistas e autores não têm controle sobre como as suas obras são utilizadas para treinar os modelos de IA. Sem permissão explícita, esses conteúdos podem ser manipulados ou reinterpretados de formas que vão contra a visão original dos criadores, o que diminui o valor e a integridade de suas criações.

Acresce, que a IA pode gerar rapidamente conteúdos semelhantes às obras originais, oferecendo alternativas mais baratas e instantâneas. Isso cria uma concorrência desleal, pois as obras geradas pela IA podem substituir, em termos comerciais, o trabalho de autores, ilustradores, músicos e outros profissionais criativos. A IA, em muitos casos, já está a dizimar empregos criativos!

Foi um erro crasso, em 2019, a Diretiva Europeia dos Direitos de Autor ter admitido a exceção de “mineração de texto e dados” (TDM, em inglês), que abriu assim a porta para a extração de conteúdo sem autorização com vista a treinar modelos de IA. Apesar de existir uma possibilidade de “opt out” (oposição) a verdade é que se tem mostrado ineficaz porque as grandes “big tech” já mineraram todos os dados de forma opaca e nada transparente. Sem respeito pelo consentimento devido dos autores e consequente remuneração.

As artes, a escrita, a música e muitas outras expressões criativas e humanas estão à beira de serem meramente “reproduzíveis” por máquinas, o que diminui o prestígio e o reconhecimento dos criadores e desencoraja o aparecimento de novos talentos. O mundo não ficará melhor!

Autoria de:

Ricardo Castanheira

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