Opinião: “Biografia”
Por razões absolutamente aleatórias li , ultimamente, três biografias de três mulheres políticas : Kamala Harris, Angela Merkel e Jacinda Ardern.
Como diz Angela Merkel, a dado passo , “sou feminista à minha maneira”, portanto o interesse que estas leituras me despertaram não está especificamente ligado ao facto de serem experiências no feminino.
Para além de muitas outras coisas, o que me chamou a atenção foram algumas das condições em e como foram formadas. Ou seja, como as características das sociedades e dos respetivos sistemas coletivos as prepararam para o desempenho de funções tão relevantes.
Em primeiro lugar a exigência. Nos três casos a total liberdade de escolha (mesmo para Angela Merkel que cresce e se forma na RDA) para o plano de estudos que as há-de marcar e a absoluta convicção de era preciso desafiar ao limite as competências pessoais. Não numa atitude competitiva estéril mas com o sentido de assim melhor vir a servir a sua comunidade.
Em segundo lugar, e explicando muito do ponto anterior, a noção de comunidade. Seja no plano civil, seja no plano religioso seja noutra dimensão qualquer todas cresceram a valorizar e a servir comunidades. Participando, organizando, acolhendo ou responsabilizando-se por tarefas pequenas ou grandes.
Em terceiro lugar a autonomia. Todas foram estimuladas a trabalhar e a gerar e gerir o seu próprio rendimento desde muito cedo. Visto como natural e obrigatório.
Em quarto lugar e, talvez mais importante, todas aprenderam a pensar. Mesmo Merkel que cresceu e aprendeu num sistema condicionado dispôs de ferramentas de debate e consolidação de argumentos que, tendo-a deixado não poucas vezes em má circunstância, a ajudaram a aprender a pensar por si própria e a defender sustentadamente as suas posições.
Jacinda Ardern, na Nova Zelândia, tinha mesmo como disciplina obrigatória uma classe de debates que se projetava em concursos inter-escolas regionais e nacionais.
São coisas simples mas explicam claramente a diferença entre sociedades mais responsáveis e outras em que o individualismo pedante e a falta de ambição pessoal para bem servir hipotecam uma convivência saudável e um progresso visível.
