diario as beiras
opiniao

Opinião: As fogueiras de São João

26 de junho às 09h44
0 comentário(s)

Celebram-se por esta altura em todo o país as festas Juninas. Cá em Coimbra, tal época é também motivo de celebração com as fogueiras de São João.

As Fogueiras de São João de Coimbra são assim denominadas porque eram fogueiras efectivamente enormes criadas para celebrar o Santo. O último registo de fogueiras propriamente ditas data de 1860, situadas no Castelo de Coimbra.

Tradicionalmente, as Fogueiras eram a festa das Tricanas, sendo por elas inteiramente organizadas. Tal deve-se à faceta casamenteira atribuída a São João (no Norte, Santo António mais a Sul), o que tornava esta festividade um fonte de vários casamentos e principalmente zaragatas entre osestudantese a ciumeira dos futricas. Era habitual tocarem-se fados corridos, batidos e cantados enquanto se dançava ao som de um mandador e se dava a volta pelas várias raparigas trocando olhares, pisadelas e alguns amassos.

São vários os relatos que dão prova desse triângulo amoroso existente entre Estudantes-Tricanas-Futricas, conflicto omnipresente na mitologia Académica. António Claro, no seu livro de memórias conta que “Os Futricas faziam roda e assistiam calados, mas alguns mordiscavam o bigode como cavalos (…)”. Outra herança visível disso, são precisamente as imensas quadras de São João que eram muitas vezes cantadas à desgarrada entre os intervenientes e que ainda hoje se cantam em Coimbra.

A quadra:
“O amor do estudante
Não dura mais que uma hora
Toca o sino, vai p’rà aula
Vêm as férias, vai-se embora…”
É claramente um aviso de um Futrica destinado a uma tricana, que por sua vez responde com:
“Dizem que amor de estudante
Não dura mais que uma hora
Só o meu é tão velhinho
‘Inda não se foi embora. “
Já o Estudante procura defender-se, fazendo mostrar o seu valor:
“Ó cidade de Coimbra
Arrasada sejas tu
Com beijinhos e abraços
Não te quero mal nenhum…”
Vindo o contra-ataque do Futrica:
“As tricanas todo o ano
Vão plantar os seus amores
Lá no jardim do engano:
No coração dos doutores.
E torna a Tricana a mostrar que o seu amor não é pelos Futricas:
“Eu vim a Coimbra ao estudo
Com tenções de me formar
Apenas vi os teus olhos
Nunca mais pude estudar…
Ó amor dá-me os teus braços
Que eu dou-te o meu coração
Ando louca por abraços
Fogueiras de S. João…”

Estas quadras, e tantas outras mais, são actualmente cantadas numa música ainda muito conhecida: O “Vira de Coimbra”, que nada mais é do que uma compilação das várias quadras que eram ditas e repetidas ao longo dos anos nas Fogueiras de São João. Pena que, muitos na sua interpretação, falham em identificar as origens destas quadras e da rivalidade tripartida que nela está presente.

No fim da noite havia ainda lugar a uma romaria, similar à romaria até às Fontainhas no Porto, mas que em Coimbra era até à Fonte do Castanheiro. Pelo caminho continuava-se a tocar e cantar, e os Estudantes ofereciam às Tricanas canas bravas apanhadas no caminho.

Com a repetição desta romaria, chegou a dizer-se que as águas da Fonte nesta noite estavam abençoadas, pois era também nesta altura que se firmavam os casamentos. Tal mito inflacionou a romaria, tornando-se esta peregrinação obrigatória para todas as Fogueiras em Coimbra:

A Fonte do Castanheiro ainda existe, e está situada na Rua da Fonte do Castanheiro (quem diria, hein…?) perto do actual Bairro Norton de Matos.

As Fogueiras de Sâo João ainda se organizam por Coimbra (sem romaria..!), sendo a mais antiga a que acontece no Largo do Marquês de Pombal e que é actualmente organizada pelo Grupo Folclórico de Coimbra.

 

Autoria de:

A. Matias Correia

Deixe o seu Comentário

O seu email não vai ser publicado. Os requisitos obrigatórios estão identificados com (*).


opiniao