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Opinião: As bolandas de Camões

05 de fevereiro de 2025 às 10 h49
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Há mais de duas décadas defendi, em textos publicados no semanário “Jornal de Coimbra” (de que eu era então Director e proprietário), que esta cidade deveria erigir um monumento de homenagem a Camões, com a dignidade exigida pela dimensão do nosso Poeta maior.

Pois agora, quando estão a comemorar-se os 500 anos do seu nascimento, parece-me oportuno voltar ao tema.
Há quem defenda que Luís Vaz de Camões aqui nasceu, embora outros sustentem que foi em Lisboa ou no Porto.
Dúvidas já não haverá quanto ao facto de ele ter sido estudante em Coimbra, sob orientação de seu tio Bento, então cónego do Mosteiro de Santa Cruz e chanceler da Universidade.

Recordo que no último quartel do séc. XIX, e para assinalar os 300 anos da morte de Camões, alunos da Universidade de Coimbra decidiram erigir-lhe um monumento, conseguindo reunir fundos para o efeito. Da autoria de António Augusto Gonçalves, o grupo escultórico (constituído por uma coluna em calcário, encimada por uma coroa de louros, e tendo na base um leão em bronze) foi festivamente inaugurado, a 8 de Maio de 1881, quase em frente à Porta Férrea.
E ali ficou até 1948, altura em que foi desmontado, à semelhança da velha Alta, para no local ser construído o actual edifício da Faculdade de Letras.

O indefeso leão, para além da infelicidade de castração escultórica, foi sendo enxotado de vários locais da selva urbana – qual rei destronado e reduzido a súbdito menor…

Primeiro enclausurado no Pátio da Inquisição, sem culpa formada. Depois colocado no átrio exterior do Palácio dos Grilos, sem perturbar consciências. A seguir, em 1963, foi libertado nos jardins da nova sede da AAC, proporcionando aos estudantes singulares experiências – mais hípicas do que épicas…

Até que em 1983, após décadas de exílio e de críticas ao desprezo a que fora votado, o leão voltou a aproximar-se da sagrada colina da Universidade, graças ao esforço conjunto da AAEC (Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra), da AAC (Associação Académica de Coimbra), da Reitoria da UC e da Câmara Municipal, sendo reconstruído o pequeno monumento na Rua do Arco da Traição, num escondido recanto entre o Jardim Botânico e o antigo CADC.

Mas nem aí o brônzeo felino conseguiu rugir em silêncio e paz, pois em 2005 a Câmara Municipal decidiu transferi-lo para a Avenida Sá da Bandeira, onde ainda hoje se encontra – de cauda derrotada, mas juba erguida, quiçá a sonhar com poiso menos selvagem e mais condizente com a grandeza do Vate por cuja memória se viu domesticado…

Num dos textos que publiquei no “Jornal de Coimbra”, lançava a sugestão que agora aqui retomo: a de que se erga um monumento a Camões que honre a memória do Poeta e não deslustre a cidade onde ele devaneou na juventude. E que esse monumento seja erigido no local que parece mais adequado: a Praça fronteira aos Arcos do Jardim, onde se encontra a estátua do Papa João Paulo II. Essa estátua bem podia (e devia!) ser transferida para o início da Avenida Urbano Duarte, onde teria enquadramento bem mais adequado frente ao Paço Episcopal e à memória do Cónego ilustre (meu saudoso Amigo) que inspirou o topónimo.

E no local do Papa, frente ao Aqueduto, aí sim, o monumento com a qualidade e a imponência que Camões merece. Houve quem apoiasse a ideia, mas quem tinha capacidade decisória assobiou para o lado… Apesar desse meu texto ter sido ilustrado com duas fotomontagens que simulavam a mudança – e que demonstravam, até esteticamente, o seu acerto.
Pois creio que é o momento de lançar novo apelo para que se concretize a transformação que se impõe: transferência da estátua do Papa para o cimo da Avenida Urbano Duarte, erguendo, frente aos Arcos do Jardim, uma escultura que não desmereça os feitos Lusíadas.

Aqui fica a sugestão, esperando que ela sensibilize não só o Comissário-Geral das Comemorações do V Centenário, o preclaro Doutor José Augusto Cardoso Bernardes, mas também a Câmara Municipal, a Universidade e mesmo o Ministério da Cultura.
Se necessário, e tal como sucedeu há quase século e meio, pode até promover-se uma angariação de fundos junto de actuais e antigos estudantes, reunindo contributos para a concretização do monumento a que Camões faz jus – e que Coimbra lhe deve!

Autoria de:

Jorge Castilho

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