Opinião: Abril é em Coimbra
“Coimbra” ou “Abril em Portugal”, é uma das canções mais gravadas a nível mundial, com duas centenas de diferentes interpretações registadas.
Mas esta famosa canção (com música de Raúl Ferrão e letra de José Galhardo, eternizada por Amália Rodrigues), não é a única coisa que liga o mês de Abril à cidade dos estudantes.
A 17 de Abril de 1969, a Academia, tendo como porta-voz Alberto Martins, Presidente da AAC, ousou enfrentar o regime e o Presidente da República de então, Américo Tomás, no decorrer da inauguração do edifício do Departamento de Matemática. Assim se iniciou uma das crises académicas mais relevantes da História, com prisões e retaliação sobre dezenas de dirigentes estudantis e uma greve aos exames com extraordinária adesão, numa cidade invadida por ameaçadoras forças especiais da PSP e da GNR.
Cinco anos mais tarde, a 25 de Abril de 1974, acontecia o bem-sucedido golpe militar, em que participaram diversos antigos estudantes de Coimbra, e que derrubou o regime ditatorial que governou o País durante quase meio século.
Vinte anos antes dessa queda da Ditadura, a 4 de Abril de 1954, registou-se uma acção que ficou conhecida como “Segunda Tomada da Bastilha”.
Recordo que a primeira “Tomada da Bastilha” ocorreu a 25 de Novembro de 1920, quando 40 estudantes da Universidade ocuparam o Clube dos Lentes, exigindo melhores instalações para a Associação Académica. E foram os próprios “conjurados” que adoptaram essa designação, por analogia com a “Tomada da Bastilha” original, ocorrida na Revolução Francesa de 1789 (com o assalto ao presídio chamado La Bastille, em 14 de Julho de 1789, até hoje celebrado como o Dia Nacional de França).
A verdade é que em 1954 a Associação Académica estava instalada, provisoriamente, no Palácio dos Grilos, aguardando que lhe fosse facultado espaço mais adequado. Como isso tardasse, membros da Direcção-Geral da AAC, então presidida por Fernando Mendes Silva (que mais tarde viria a ser Presidente da Câmara Municipal de Coimbra e Presidente da Académica-OAF), e elementos da Tuna e do Orfeon, decidiram seguir o exemplo legado pelos seus colegas de 1920, e ocuparam o “Clube dos Lentes”.
O grupo destes novos “revoltosos” incluía, entre outros (e para além do já citado Mendes Silva), Afonso Moura Guedes, Viriato Namora (que viria a ser colaborador próximo de Bissaya Barreto) Júlio Serra e Siva e o seu irmão Polybio Serra e Silva (este último fundador e um dos mais dedicados e entusiastas dirigentes da AAEC, que faleceu em Outubro de 2022 ).
A polícia interveio, mas não houve confrontos nem prisões, pois, entretanto, foi chamado o Reitor, Maximino Correia, e após demoradas conversações, pela madrugada adiante, os estudantes acabaram por abandonar o edifício, perante a promessa de que a sua reivindicação seria transmitida ao Governo. E a verdade é que o caso chegou ao conhecimento de Salazar, que terá comentado que “os rapazes têm razão”, dando instruções para se avançar para um edifício de raiz para a AAC. E assim foi iniciado o processo que levaria à construção da nova sede da AAC, incluindo o Teatro Académico de Gil Vicente, cuja inauguração aconteceu em 1961. Foi esta conquista que justificou que, desde há alguns anos, 4 de Abril passasse a ser assinalado como o “Dia do Antigo Estudante de Coimbra”.
Para o comemorar, a AAEC promove depois de amanhã (sexta-feira) uma jornada alusiva à efeméride, que decorrerá na Casa dos Pobres, em S. Martinho do Bispo. Trata-se de uma instituição que desempenha uma actividade exemplar, mas que também tem uma forte ligação simbólica à Academia: um dos fundadores e dirigente da Casa dos Pobres ao longo de muitos anos foi o advogado Alfredo Fernandes Martins, precisamente aquele que em 1920, quando era jovem estudante de Direito, foi o líder do grupo que levou a cabo a arrojada primeira “Tomada da Bastilha”.
A comemoração desta sexta-feira, a iniciar pelas 12H30, inclui um almoço de convívio e uma sessão evocativa de antigos estudantes.
Esta jornada é aberta a todos os interessados, que poderão inscrever-se ainda hoje (quarta-feira), através do e-mail aaec@aaec.pt ou pelo telefone 917554577.
