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Opinião: A pobreza resistente: o espelho de um país que não se quer ver

20 de outubro de 2025 às 10 h57
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Apesar dos avanços económicos, das manchetes otimistas e dos indicadores que parecem sugerir progresso, a verdade é que a pobreza em Portugal continua a resistir. A taxa mantém-se teimosamente entre os 16 e os 17 por cento, sem sinais consistentes de descida.

Pior ainda, o risco de pobreza até aumentou em alguns segmentos da população, revelando a fragilidade estrutural da nossa economia e das políticas sociais. Mas o dado mais alarmante talvez seja outro: a intensidade da pobreza, isto é, a distância entre o limiar da pobreza e o rendimento dos mais desfavorecidos, aumentou de forma significativa. Em termos simples, os pobres de hoje estão mais longe de deixar de o ser do que estavam há uma década.

E se retirássemos os apoios públicos, a taxa de pobreza dispararia para valores próximos dos 40%. Quase metade do país cairia abaixo do limiar de uma vida digna. É um número que deveria chocar, envergonhar e mobilizar. Não é aceitável que, no século XXI, uma sociedade moderna e europeia continue a conviver com tamanha desigualdade.

Mas quem são, afinal, os pobres de Portugal? Não são, como muitos imaginam, apenas os desempregados ou os socialmente excluídos. São, cada vez mais, famílias que trabalham todos os dias, que cumprem horários, pagam impostos e ainda assim não conseguem escapar à pobreza. São os chamados “trabalhadores pobres”, expressão que, só por existir, denuncia uma falha profunda no contrato social. São também idosos, muitos deles com carreiras contributivas completas, mas cujas pensões mal chegam para suportar despesas básicas como alimentação, medicamentos e energia.

E são, ainda, famílias monoparentais, em particular mulheres sozinhas com filhos, que enfrentam o peso desigual das responsabilidades familiares e financeiras. O divórcio, em vez de ser apenas uma escolha de vida pessoal, tornou-se em muitos casos um fator de vulnerabilidade económica. Importa ainda reconhecer que o problema pode ser ainda mais profundo do que as estatísticas revelam: o limiar da pobreza raramente reflete o esforço financeiro necessário para manter uma casa. Num contexto de rendas elevadas, prestações bancárias pesadas e custos energéticos crescentes, o impacto real da pobreza é certamente maior do que aquilo que os números deixam ver.

Temos, por isso, uma pobreza que mudou de rosto, mas não perdeu força. Uma pobreza que se disfarça sob o véu da normalidade quotidiana, mas que corrói silenciosamente a coesão social. E, perante isto, o que temos feito? As políticas redistributivas, subsídios, apoios e transferências sociais, têm sido essenciais para amortecer o impacto, mas não têm conseguido resolver o problema de fundo. São como analgésicos: aliviam a dor, mas não curam a doença. A verdade é que não basta redistribuir. É preciso criar. Criar riqueza, criar emprego digno, criar oportunidades reais de mobilidade social. Um país que não produz riqueza, que não valoriza o trabalho e que não investe em produtividade, inovação e qualificação, está condenado a distribuir pobreza.

A pobreza não é uma fatalidade, é uma escolha coletiva ou, pior ainda, uma indiferença coletiva. Enquanto aceitarmos que milhares de famílias trabalhem sem alcançar o suficiente para viver com dignidade, estaremos a pactuar com um modelo económico que falhou no seu propósito mais básico: garantir bem-estar a quem o sustenta com o seu esforço. A luta contra a pobreza não se ganha apenas com políticas sociais; ganha-se com uma economia justa, com educação de qualidade, com salários que reflitam o valor real do trabalho e com um Estado que saiba investir no futuro, em vez de apenas remediar o presente.

Portugal precisa, urgentemente, de romper com a resignação. A pobreza não é apenas um problema económico, é um espelho moral. E o que ele reflete, neste momento, é um país que ainda não decidiu se quer mesmo ser justo.

Autoria de:

Arnaldo Coelho

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