Opinião: À Mesa com Portugal – Porque usa(va)m as nossas mães cubos de caldo empacotados?
Na ideia da pureza santa e imaculada de uma cozinha portuguesa genuína feita de caldos de preparação lenta há esta questão dos caldos de carne comercializados por várias marcas. Há mutos anos, gerou-se um consenso entre as donas de casa que aquele preparado deixava a comida mais saborosa. Era a magia dos ultraprocessados na cozinha mesmo antes de se falarem deles. Um pequeno cubo, mágico, portanto, era tido como uma solução para dar à cozinha um timbre moderno.
A introdução de tal solução culinária terá sido coincidente com alguma abertura de Portugal ao mundo exterior, às novidades que vinham de fora, e por outro lado, com o tempo que tal solução poupava na cozinha. Num país que vivia de caldos, o uso destes cubos ultraprocessados poupava tempo às mulheres habitualmente responsáveis pela alimentação da família. Cada vez mais divididas entre as tarefas domésticas e um emprego que lhes dava autonomia, as mulheres não discutiram a entrada deste ingrediente na cozinha. Da lista de compras passou a fazer parte, as caixinhas com os cubos mágicos e, de um modo subtil, integraram os hábitos culinários.
Quantas vezes não ouço, ainda hoje, muitas senhoras consideradas matriarcas da cozinha tradicional fazerem referência ao uso caldos das várias marcas disponíveis no mercado. Julgo que o fazem sem perceberem as implicações. Uma análise detalhada aos ingredientes de tais produtos diz-nos que é preciso cautela. Para além de não se perceber quais os ingredientes utilizados, é notório o uso de aditivos intencionalmente utilizados para influenciar o sabor, a cor, a consistência, etc. Porque se fala tanto destes aditivos? Em primeiro lugar, porque a sua introdução em produtos alimentares pode ter como intenção mascarar a ausência de qualidade. Ou seja, o que o produto não tem, passa a ter com a utilização de um aditivo. Por outro lado, são poucos divulgadas as consequências que o consumo excessivo destes aditivos têm na nossa saúde, das crianças aos idosos.
Os aditivos são um problema sério na alimentação. Não vou aqui discorrer sobre o assunto, quero apenas lembrar que cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém. De preferência que sejam caldos feito com ossos, uma boa cabeça de peixe, uma galinha velha, ou legumes, ou algo que saibamos a origem, e não uma coisa que parece, mas não é. Que os caldos sejam bons, porque até com estes é preciso ter cautela.


