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No Centro da mobilidade reduzida

15 de junho de 2026 às 15 h30

Durante três dias, Viseu recebeu a 12.ª edição do Fórum do Turismo Interno, uma iniciativa anual que procura pensar Portugal para lá dos aeroportos internacionais, das capitais e dos destinos que já não precisam de apresentações. Num país onde o turismo continua excessivamente dependente de uma faixa litoral cada vez mais saturada, é natural que alguém tente atrair as atenções para o Centro, uma região que reúne muitos dos atributos que associamos ao turismo sustentável: autenticidade, património, natureza, gastronomia, cultura e uma relação humana que não se encontra nos destinos massificados.

Foi precisamente essa a mensagem dominante ao longo do evento e houve uma preocupação evidente em recentrar o debate naquilo que conta e em afastar a imagem do Centro das calamidades passadas e futuras que marcam a perceção pública da região, sejam os habituais incêndios de Verão, sejam as tempestades de Inverno que este ano deixaram um rasto de destruição. Nem sequer a recente campanha do Presidente da República a incentivar os portugueses a passarem férias no Centro foi particularmente valorizada. O Centro não quer caridade, não quer turistas por solidariedade, nem quer visitantes porque alguém decidiu ajudar uma região que passou por tragédias. O Centro quer competir pelos seus próprios méritos e quer ser escolhido porque tem qualidade.

O Centro deseja afirmar-se pela Humanidade que os seus responsáveis apontam como principal fator diferenciador da experiência turística. Mas, no meio de tantas reflexões sobre o futuro da região, houve um tema que, infelizmente, passou quase discretamente pelas margens da discussão: a mobilidade, ou melhor, a falta dela. Ironicamente, o Centro está no centro de Portugal, mas continua longe do centro das decisões; está no centro dos mapas, mas fora do centro da política de transportes; está no centro dos discursos sobre coesão territorial, mas permanece periférico quando chega o momento de desenhar infraestruturas e ligações.
A nova campanha do Turismo de Portugal desafia-nos a “não procurar mais longe” e a “encontrar o nosso país”.

Apesar de ser muito apelativa, o problema é que, para muitos portugueses, encontrar o país continua a ser surpreendentemente difícil: como se encontra o Centro a partir da Madeira? Como se encontra o Centro a partir do Algarve? Como se encontra o Centro sem automóvel? Como se encontra o Centro quando o principal modelo de acessibilidade continua a ser aterrar em Lisboa ou no Porto e percorrer mais algumas horas de carro? Durante décadas convencemo-nos de que a coesão territorial se fazia com discursos e autoestradas. Entretanto, a realidade foi evoluindo noutra direção e até a própria aviação se tornou mais flexível, mais descentralizada e mais capilar. Surgiram novas rotas, novos mercados e novas formas de aproximar regiões que antes pareciam demasiado pequenas para justificar ligações diretas – por exemplo, do Porto e de Faro é possível voar hoje para “aldeias” de França e do Reino Unido e não apenas para Paris ou Londres.

Mas Portugal continua a olhar para a mobilidade interna através de uma lente antiga e até a ferrovia foi sendo sucessivamente abandonada. A que existe continua dependente de um único operador público, as ligações entre cidades do interior permanecem lentas e pouco competitivas e o transporte público entre muitas localidades e atrações turísticas é insuficiente. Para um visitante estrangeiro ou nacional, a conclusão é simples: sem automóvel, grande parte do território é inacessível. Passados cinquenta anos de empresas públicas aéreas, aeroportuárias e ferroviárias, a resposta portuguesa para a mobilidade aérea do interior resume-se a uma rota de serviço público operada por um avião de 19 lugares que liga num só voo Bragança, Vila Real, Viseu, Cascais e Portimão.

Este serviço “público” não está integrado nos sistemas globais de reservas, não possui acordos de interline comercial com outras companhias aéreas, não coneta em nenhum hub e não dialoga sequer com operadores turísticos…mas, claro está, custa milhões aos contribuintes sem um retorno relevante. É, de facto, difícil imaginar uma representação mais fiel daquilo que tem sido a visão portuguesa sobre mobilidade regional. Curiosamente, este conformismo manipulado contrasta com aquilo que vemos noutros lugares: durante anos ouviu-se em Lisboa, no centro decisório da TAP, que uma ligação doméstica sem escalas entre Porto e Faro não tinha mercado suficiente para existir, que não havia passageiros, nem procura, muito menos viabilidade.

A Ryanair entrou nesse suposto mercado inexistente há quase 20 anos e este Verão terá mais de 250 mil lugares em ambos os sentidos disponíveis nessa rota; no Inverno serão mais de 100 mil. Afinal o mercado existia, o que não existia era vontade de o procurar fora de Lisboa. Talvez seja precisamente aqui que o Centro deveria desafiar o país: o que seria necessário para existirem verdadeiros voos comerciais diretos entre Viseu e Funchal ou Viseu e Faro? O que seria necessário para olhar para a mobilidade interna com o mesmo grau de ambição com que olhamos para a captação de turistas internacionais?

Porque um voo Viseu-Funchal representa um Centro que começaria a deixar de depender exclusivamente de Lisboa e Porto; representa estudantes, empresários, expositores, conferencistas, turistas e famílias com mais opções de mobilidade e representa um país mais próximo de si próprio. A questão aqui não é se existe procura suficiente para um voo Viseu-Funchal, a resposta será idêntica à do tal voo Porto-Faro há 20 anos; a questão relevante é perceber porque continuamos a assumir que ela não existe e a não criar as condições para que se concretize. Uma coisa é certa: enquanto continuarmos a discutir a promoção turística do Centro sem discutir a sua acessibilidade de forma séria e disruptiva, estaremos a tentar vender um destino que insistimos em manter distante por causa de uma mobilidade reduzida a pouco ou nada.

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