opiniao

Opinião: A cultura crítica contra a mentalidade de rebanho

21 de fevereiro de 2026 às 15 h28

Em defesa do papel indispensável da cultura crítica, costumo afirmar, em especial ao falar para públicos jovens, que «criticar não é dizer mal». Ela emerge naquele espaço da vida coletiva onde se cruzam ideias, factos, saberes, criações e comportamentos, como dimensão na qual é possível compreender e questionar significados, valores, contextos e dinâmicas, sempre afastando hipotéticas «verdades absolutas». A cultura crítica traduz, por isso, um modo de pensar que tende a questionar saberes, ideologias, tradições e formas dominantes de representar o mundo. Apoia-se num pressuposto básico: nada «é o que é», simples, inequívoco, estático, e tudo é complexo e instável, com diferentes e contraditórios sentidos para as dinâmicas da vida e do progresso.

Esta caraterística separa a análise crítica, que contém o debate e o contraditório, da vulgar e oca maledicência, mas torna-a por vezes objeto de desconfiança. Entre nós esta possui três condicionantes que lhe dão uma tonalidade negativa. A primeira recupera comportamentos antigos e atávicos, influenciados pela censura e pela repressão do salazarismo, que pelo medo impunham a rejeição do confronto plural. A segunda prolonga a pedagogia do silêncio, transmitida a partir do sistema escolar e da educação religiosa e familiar, que por largas décadas se manteve dominante. E a terceira integra a experiência, vivida já em democracia, traduzida, em particular em ambientes académicos e até partidários, numa prática débil da polémica.

Todavia, a cultura crítica permite a construção de um rico espaço de conteúdos e de formas de comunicar. Escapando, como Gramsci sugeria, aos territórios da cultura moderna, condicionados por interesses materiais – já denunciados pela «teoria crítica» proposta desde a década de 1920, pelos pensadores da Escola de Frankfurt –, mas fugindo igualmente aos da cultura popular, também esta manipulável. Já a sua ausência, por falta de alternativas ao imobilismo, abre campo às piores perversões do debate cívico, favorecendo o pensamento único e o autoritarismo, condicionando o conhecimento, e reduzindo as condições de diversidade e de criação das democracias. Cedendo ainda espaço à propagação massiva da mentira e da calúnia, munição do populismo.

Imersos na afirmação constante de juízos não-fundamentados, tendencialmente negativos e de sentido único, veiculados em particular por parte da comunicação social, em especial das televisões e das redes sociais, vivemos um clima favorável ao perigoso pântano que as alimenta. Todavia, não se trata apenas da banalização da mentira e do ódio, instigadora das pessoas comuns contra a sociabilidade mais básica, mas da imposição, de um modo ainda mais intenso do ocorrido no passado com a afirmação dos vários totalitarismos, de formas de pensamento apresentadas como únicas certas, aceitáveis e «úteis».

Opondo-se a este panorama, a importância da cultura crítica revela-se na capacidade que detém para alimentar, na construção de sociedades mais livres e melhores, escolhas fundamentadas e coerentes com aquilo em que os cidadãos acreditam ou que desejam. A autonomia dinâmica da reflexão é, pois, um elemento fundamental para, em ambientes plurais, contrariar a imposição, de cima para baixo, dessa cega e aviltante mentalidade de rebanho que Nietzsche com tanta veemência condenou em «Para além do Bem e do Mal». Porém, ela não se afirma por si, num registo de conciliação e cega indulgência para com quem a procura silenciar, traduzindo um combate constante e a levar a cabo todos os dias.

Deixe o seu Comentário

O seu email não vai ser publicado. Os requisitos obrigatórios estão identificados com (*).


Últimas

opiniao