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O sonho Australiano

22 de maio de 2026 às 10 h15

O sonho australiano sempre foi simples: trabalhar, comprar casa e ver a vida melhorar. Durante décadas, funcionou: ruas seguras, saúde e educação de qualidade, e salários a subir.
Contudo, esse sonho está em risco de se tornar um pesadelo e o governo viu-se forçado a mexer em três impostos intocáveis desde os anos 90: ganhos de capital, investimento imobiliário, e fundos familiares, usados para otimizar impostos pelo agregado familiar. O objetivo é reduzir a distância entre quem vive do trabalho e quem vive do capital acumulado.

Mas a reforma tem contradições: só se aplica a novos investimentos, protegendo quem já beneficiava, o que vai acentuar o fosso entre quem já acumulou riqueza e quem quer gerar riqueza. Para os mais jovens, o futuro parece mais um pesadelo: contas a subir, salários que não crescem, casas impossíveis de comprar e qualidade de vida a baixar.

A prova está nos números. Nos últimos 10 anos, o PIB per capita subiu 53%; em Portugal, 80% – os Australianos ficaram relativamente mais pobres do que os Portugueses. Nos últimos 15 anos, a dívida pública disparou de 20% para 51%. Portugal reduziu-a de 100% para 90%. Nos últimos 25 anos, comprar uma casa passou de 6 vezes o salário médio para 13 vezes. E assim, a Austrália ficou à mercê do populismo de extrema-direita do One Nation, que tem vindo a subir nas votações e a ameaçar o centro-direita, que começou a culpar os imigrantes para proteger votos. E, ironicamente, enquanto se aponta o dedo a quem chega, ninguém toca nos poderes instalados. A Austrália é o 3º maior exportador mundial de gás natural, mas mais de metade do gás exportado não paga impostos. Apesar da pressão de senadores independentes e da opinião pública para a introdução de uma taxa de 25% sobre as exportações de gás, o governo e a oposição, incluindo o One Nation, fogem ao tema.

O problema não está na imigração, nos subsídios ou nos impostos sobre o trabalho. Está numa ínfima parte da população controlar os recursos do país e acumular riqueza extrema. Enquanto isso, os media continuam a falar do top 10% mais bem pago do país, mas o problema está na riqueza dos 0,0001% que não vivem de salários.

E assim, o populismo cresce não porque tem boas respostas para perguntas difíceis. Cresce porque os partidos no poder não tomam medidas óbvias, como taxar as exportações do gás, por estarem reféns do sistema. A meu ver, a democracia ocidental teria 5 a 10 anos para equilibrar os ganhos dos ultrarricos e dos demais. Mas a inteligência artificial está a acelerar tendências e vai reduzir essa janela temporal.O sonho australiano sempre foi simples: trabalhar, comprar casa e ver a vida melhorar. Durante décadas, funcionou: ruas seguras, saúde e educação de qualidade, e salários a subir.
Contudo, esse sonho está em risco de se tornar um pesadelo e o governo viu-se forçado a mexer em três impostos intocáveis desde os anos 90: ganhos de capital, investimento imobiliário, e fundos familiares, usados para otimizar impostos pelo agregado familiar. O objetivo é reduzir a distância entre quem vive do trabalho e quem vive do capital acumulado.

Mas a reforma tem contradições: só se aplica a novos investimentos, protegendo quem já beneficiava, o que vai acentuar o fosso entre quem já acumulou riqueza e quem quer gerar riqueza. Para os mais jovens, o futuro parece mais um pesadelo: contas a subir, salários que não crescem, casas impossíveis de comprar e qualidade de vida a baixar.

A prova está nos números. Nos últimos 10 anos, o PIB per capita subiu 53%; em Portugal, 80% – os Australianos ficaram relativamente mais pobres do que os Portugueses. Nos últimos 15 anos, a dívida pública disparou de 20% para 51%. Portugal reduziu-a de 100% para 90%. Nos últimos 25 anos, comprar uma casa passou de 6 vezes o salário médio para 13 vezes. E assim, a Austrália ficou à mercê do populismo de extrema-direita do One Nation, que tem vindo a subir nas votações e a ameaçar o centro-direita, que começou a culpar os imigrantes para proteger votos. E, ironicamente, enquanto se aponta o dedo a quem chega, ninguém toca nos poderes instalados. A Austrália é o 3º maior exportador mundial de gás natural, mas mais de metade do gás exportado não paga impostos. Apesar da pressão de senadores independentes e da opinião pública para a introdução de uma taxa de 25% sobre as exportações de gás, o governo e a oposição, incluindo o One Nation, fogem ao tema.

O problema não está na imigração, nos subsídios ou nos impostos sobre o trabalho. Está numa ínfima parte da população controlar os recursos do país e acumular riqueza extrema. Enquanto isso, os media continuam a falar do top 10% mais bem pago do país, mas o problema está na riqueza dos 0,0001% que não vivem de salários.

E assim, o populismo cresce não porque tem boas respostas para perguntas difíceis. Cresce porque os partidos no poder não tomam medidas óbvias, como taxar as exportações do gás, por estarem reféns do sistema. A meu ver, a democracia ocidental teria 5 a 10 anos para equilibrar os ganhos dos ultrarricos e dos demais. Mas a inteligência artificial está a acelerar tendências e vai reduzir essa janela temporal.

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