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O SNS: ainda há tempo de o salvar

01 de julho de 2026 às 09 h30

Há uma mentira cómoda a instalar-se no país: a de que o SNS está condenado. Não está. Condenado está o modelo político que o capturou, o enfraqueceu e que agora tenta transformar anos de desgoverno como se fossem uma fatalidade inevitável.

O SNS não falhou por falta de sentido histórico, nem por ausência de valor público. Falhou porque o Estado foi incapaz de proteger aquilo que nenhum sistema de saúde pode perder: os profissionais que o sustentam. Confundiu igualdade com uniformidade, experiência com simples antiguidade e carreira com espera resignada.

Quando um sistema trata da mesma forma quem apenas cumpre e quem vai além do que lhe é exigido, não está a ser justo, está a corroer-se por dentro. Está a dizer aos melhores que o esforço não conta, que a excelência incomoda e que a dedicação será sempre menos importante do que o tempo decorrido. Com este modelo, os melhores profissionais não partem por acaso. Partem porque o sistema deixou de lhes dar razões para ficar.

O caminho para salvar o SNS existe. Não é novo nem secreto. Exige apenas aquilo que tem faltado: coragem para escolher os melhores, medir resultados de forma séria e responsabilizar quem decide. Essa coragem deve traduzir-se em três reformas simples, mas decisivas.

A primeira é acabar com carreiras em que se progride sobretudo pelo tempo de serviço. O desempenho tem de contar e para isso a avaliação deve ser séria, transparente e consequente, não para punir, mas para reconhecer os melhores e proteger os doentes. O mérito não é um privilégio, é uma exigência ética.

A segunda é retirar a liderança dos hospitais da lógica da proximidade política. Um hospital deve ser dirigido por quem demonstra competência, não por quem acumula confiança partidária. Gerir uma instituição de saúde é uma responsabilidade técnica, ética e humana. Deve depender de concursos exigentes, avaliação de resultados e estabilidade suficiente para resistir à espuma eleitoral.

A terceira é remunerar de forma competitiva quem o Estado afirma querer reter. A vocação não paga contas, não apaga o desgaste e não substitui o reconhecimento. Nenhum serviço público sobrevive quando os seus melhores profissionais concluem que só serão valorizados se partirem.

Mas nenhuma reforma será suficiente enquanto o SNS continuar capturado por lógicas que não servem os doentes. É preciso afastar os partidos da gestão dos hospitais e limitar o poder das corporações, sempre que a defesa legítima de interesses se transforma em veto sobre o interesse público. A saúde não pertence a aparelhos, clientelas ou grupos instalados. Pertence aos cidadãos.

Três medidas e uma libertação. Nada disto é impossível, mas tudo tem sido sempre adiado, ano após ano, porque exige romper com aquilo que protege o poder instalado: a ausência de avaliação, a recusa de escolher os melhores e a falta de responsabilização por resultados concretos.

O sobressalto cívico começa aqui: exigir um SNS em que o mérito pese mais do que a antiguidade, a competência mais do que a proximidade e o interesse público mais do que qualquer poder instalado.

Não precisamos de heróis no SNS, precisamos que o SNS deixe de os sacrificar.

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