Memórias de Ormuz (parte 4) Irão–2012
Caminhar sob o pico do calor, em pleno mês de Agosto, tentando sobreviver a cinquenta graus de temperatura é daquelas vivências que nos fazem pensar “mas que raio estou aqui a fazer”. Acontece muitas vezes quando a cabeça não tem juízo e o corpo é que paga.
Rapidamente esvazio a água que tenho nas duas garrafas de meio litro que trago no meu colete. Preciso de arranjar o bem mais precioso que se pode encontrar por aqui, e não há lojas abertas. O milagre vem da mesquita local, onde encontrei um reservatório com água fresca. O sabor roça o intragável, mas era o que havia no meio daquele cenário desértico. Foi beber até me saciar, como se partisse numa viagem de caravela para o mar alto.
Já avisto a fortaleza ao fundo da rua, mas a entrada é de difícil acesso, e nem sei onde é a bilheteira, se é que existe. A estrutura é enorme, mas pareceu-me um gigante com pés de barro, pois era construída com pedra muito roliça e pequena, envolvida numa argamassa alaranjada, o que lhe conferia muito pouca solidez para o propósito a que se destinava. Tive de contornar o estaleiro de uma pequena empresa que estava localizada junto às suas muralhas para chegar finalmente à porta principal. Ao entrar, encontra-se uma placa metálica com uma nota explicativa da sua história, com referência a Portugal, um pequeno pormenor que não me deixou indiferente.
O enorme portão de madeira estava aberto, e nem perdi tempo a entrar. Visto do interior, o espaço é bem mais vasto do que julgava. Não obstante a passagem do tempo ter sido impiedosa com aquela que foi uma das principais feitorias do Império Português do Oriente, ainda hoje dá para perceber a sua imponência. Ainda se encontram alguns canhões, mas não consegui confirmar se eram dos nossos antepassados. Há uma porta aberta na torre de menagem, e é para aí que me dirijo, sem saber sequer o que é, pois só quero mesmo refugiar-me de um calor que me está a fazer mal.
Era um pequeno museu, onde se podiam ver algumas peças arqueológicas, epigrafias, balas de canhão e algumas gravuras antigas. O funcionário, ao ver a minha cara que lhe deveria fazer lembrar um náufrago, percebeu logo o que eu precisava e apontou para o pequeno reservatório de água.
Saciado da sede, começava agora a olhar com mais atenção para o património que ainda honrava a nossa presença há quatro séculos atrás e a ficar espantado como era viver naquelas duras condições. (continua)

