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Hoje como outrora estudantes solidários

04 de fevereiro de 2026 às 10 h36
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No início da passada semana eu pensava que iria aludir, neste texto, ao Carnaval e ao Dia dos Namorados. Seria a propósito de um almoço de confraternização juntando estes dois temas, que a Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra (AAEC) vai promover na sua sede no próximo dia 14 (e para o qual os interessados podem inscrever-se, até ao dia 12, através do telefone 917 554 577).

Entretanto, porém, fomos atingidos pela depressão Kristin, com as trágicas consequências que continuam a fazer-se sentir de forma muito impressionante.

Tal como sucedeu em anteriores situações anómalas em tempos recentes (designadamente os incêndios florestais e o “apagão”), as respostas governamentais têm tardado e ficado muito aquém do que seria necessário.

Em contrapartida, a solidariedade espontânea de muita gente anónima, dos mais variados pontos do País (e até do estrangeiro), tem sido extraordinária e reconfortante. Entre os gestos solidários, quero aludir à iniciativa da Associação Académica de Coimbra (AAC), apelando à comunidade académica e à sociedade civil para doação de bens alimentares não perecíveis, de água engarrafada e de produtos de higiene, para distribuir pelas populações atingidas. Aqui reforço esse apelo, lembrando que o ponto de recolha destes produtos está localizado na papelaria da AAC, entre as 09h30 e as 17h30, ao longo das duas próximas semanas.

Esta calamidade e os gestos solidários que tem despertado, trouxeram-me à memória aquela que é considerada a maior tragédia que atingiu o nosso País depois do terramoto de 1755.

Estou a referir-me a uma outra depressão (na altura sem nome), que na noite de 25 para 26 de Novembro de 1967 (há quase 59 anos), atingiu Portugal, provocando muitas centenas de vítimas na Região de Lisboa e Vale do Tejo.

Estima-se que as chuvas fortíssimas e os rios de lama a que deram origem, terão destruído mais de 20 mil casas, matando, pelo menos, 700 pessoas, e ferindo gravemente muitos milhares.

O Governo não só tardou a reagir perante a tragédia, como tentou ocultar a sua terrível dimensão.

Portugal era então um País pobre e atrasado, mas possuidor de um Império pluricontinental, há seis anos empenhado numa Guerra Colonial em três frentes (Angola, Moçambique e Guiné). Governado por uma ditadura há décadas liderada por Salazar, sustentada por uma polícia política (a PIDE) violenta e tentacular e por um sistema de censura prévia que impedia que os jornais, as rádios e o único canal de televisão (a RTP) publicassem o que quer que fosse considerado desfavorável para o regime.

A censura proibiu a divulgação de notícias detalhadas sobre a tragédia, mas estudantes que tomaram conhecimento do que sucedera foram passando a palavra, provocando um extraordinário movimento de apoio nas academias de Lisboa, Coimbra e Porto.

No caso de Coimbra, o próprio Conselho das Repúblicas e outras organizações estudantis organizaram a ida de voluntários para a zona sinistrada e ali ajudaram a tratar dos feridos e a retirar os mortos dos “rios” de lama, distribuíram alimentos e vacinas, lavaram roupas e limparam casas das famílias atingidas.

A censura foi proibindo as notícias sobre o número de mortos e o auxílio prestado por muitas centenas de estudantes na zona da tragédia. Alguns desses estudantes viriam mesmo a ser perseguidos pela PIDE, o que não impediu que fosse produzido e distribuído, de forma clandestina, um jornal policopiado, que ia divulgando o que se passava naquele cenário de macabra devastação.

Hoje, felizmente, não há ditadura, nem polícia política, nem censura.

Mas continua a existir o espírito solidário e a generosidade da juventude, o que muito nos sensibiliza e nos enche de orgulho, já que prova que os actuais estudantes de Coimbra são dignos continuadores das altruístas gerações que os antecederam.

Autoria de:

Jorge Castilho

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