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“FOMO” e Upskilling

05 de março de 2026 às 11 h15

Muitos de nós começam a padecer de uma certa “hiperatividade digital” não diagnosticada. Desafio: considere um slot de 2 horas no seu contexto de trabalho e anote todas as vezes que muda de janela num assunto efetivamente urgente porque lhe surgiu uma notificação no WhatsApp ou porque se recordou de um e-mail igualmente urgente e que não respondeu, porque alguém lhe ligou.

Cada vez que muda de tabulador, de aplicação ou de dispositivo ao qual dá atenção, demora vários minutos (entre 3 a 23) até se concentrar de novo na tarefa onde estava.

Isto, se ainda se recordar qual era… A isso chama-se “custo da alternância”. Por esta razão, algumas distrações podem ser eliminadas trabalhando a horas em que as interrupções são menores (ficou famoso “O Clube das 5 da Manhã” do Robin Sharma) ou, se considerarmos as últimas tendências, se colocarmos a Inteligência Artificial (IA) a dar-nos uma ajuda.

O que tem isto a ver com o Upskilling? Lendo o artigo do Victor Francisco, nesta coluna, verificamos que o PTRR coloca desafios/oportunidades às Instituições de Ensino Superior (IES) em diversas áreas de formação, para melhoria das competências dos profissionais. Já no âmbito do PRR, Plano de Recuperação e Resiliência, sugiram Microcredenciações para preparar os profissionais para os desafios que se anunciam há muito. Será que o que está a ser realizado prepara, de facto, os profissionais para os desafios, por exemplo, nas tais ferramentas de IA de que necessitamos para realizar todo o trabalho? Ou também esse périplo por todas essas oportunidades – que são muitas – nos vai conduzir de novo a mais distrações e mais “hiperatividade digital”?

O site “IA Hoje” (https://inteligenciaartificialhoje.pt), que sistematiza financiamento para as empresas adotarem IA, permite consultar informação sobre os 100 milhões de euros disponíveis para as PME no âmbito do PRR, as diversas fases e o que foi apoiado, nomeadamente, adoção de IA a fundo perdido (não reembolsável) para 75% dos investimentos em soluções de IA entre 5.000 e 300.000 € por empresa, financiando software e subscrições de IA, equipamentos, recursos humanos, consultoria e formação (em particular, formação das pessoas para a utilização de ferramentas de IA).

Por razões variadas, muitas dessas oportunidades de formação estão ainda em curso (e em divulgação) para executar até ao final do PRR – Junho de 2026. Um certo síndrome FOMO – Fear of Missing Out, ou “medo de ficar de fora”/“medo de perder oportunidades” está agora a apoderar-se das pessoas: haverá mais cursos no futuro ou terei mesmo de frequentar todos os que conseguir? Parece-me que poderemos correr o risco de não conseguir aproveitar devidamente o que estas oportunidades nos poderiam trazer, tal é o excesso de oferta em simultâneo e a necessidade de a executar.

A isto, vai (ainda) juntar-se o PTRR. Poderíamos aprender algumas lições com o passado: enquanto, há mais de 2 décadas, o FSE, Fundo Social Europeu, financiou formação em Tecnologias de informação e Comunicação, as empresas aplicaram “receitas” para formar milhares de pessoas, sem criar trajetos específicos de aplicação em função das necessidades de diversos grupos profissionais, o que resultou em muita formação mas pouco impacto.

Espero que as novas microcredenciações não sejam “one-size-fits-all” ou um roteiro infinito de ferramentas de IA, que logo esqueceremos e que rapidamente perderão oportunidade, tal é a velocidade de atualização das plataformas, opções disponíveis e custos associados. Também na formação o mundo é VICA, Volátil, Incerto, Caótico e Ambíguo, e as IES não se podem esquecer disso: hoje as pessoas não têm 35 h para aprender um tema. Não contemos a história desde os “Invernos da IA”. Centremo-nos no que as pessoas efetivamente necessitam. Orientemos a formação para grupos específicos e sejamos claros no que pretendemos entregar. Se não, será, uma vez mais, uma oportunidade perdida.

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