Fadista Vanessa Alves grava primeiro álbum que vai cantar no dia 14 ao CCB em Lisboa
A fadista Vanessa Alves, com uma carreira de 25 anos que já atravessou diferentes continentes, edita este mês o seu primeiro álbum, “O Tempo que Demora”, e antecipa-o no dia 14, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.
Segundo a fadista, com uma carreira internacional que já passou por palcos da Europa, Arábia Saudita, Brasil e China, o facto de gravar só agora deve-se “a um conjunto de fatores”: “Primeiro, eu não queria gravar, depois queria e não tinha como, voltei a não querer gravar, mas para mim, fundamentalmente, o fado é uma forma de estar na vida, e a minha forma de estar na vida é ir aos fados”, disse à agência Lusa.
“Não quer dizer que quem grave discos não seja fadista, de todo, eu adoro ouvir os discos dos meus colegas”, esclarece de imediato Vanessa Alves. “Mas no meu caso, gravar um disco ia alterar a minha rotina, era uma dor de cabeça”, acrescentou, afirmando que as sua prioridades rotineiras são “ir aos fados todos os dias e voltar para casa e estar com os filhos”. Com um disco gravado, no entanto, agora “já não será tanto”.
Vanessa Alves afirma-se como “uma alfacinha de gema” que gosta de Lisboa, onde nasceu, e da sua cultura. “Sou profundamente enraizada na cultura da minha cidade, daí cantar fado. Sou neta e sobrinha de varinas e lavadeiras, com uma costela ancestral em Arganil e Pampilhosa da Serra”.
Do alinhamento do álbum, editado pelo Museu do Fado, faz parte “Vem ter Comigo”, no Fado Amora, de Joaquim Campos, escrito expressamente para si por Duarte, fadista e músico com quem partilha o cartaz da casa de fados Senhor Vinho, em Lisboa.
“O Duarte conhece-me muito bem, já há 20 anos, e aquela letra foi pensada para mim, fui eu que lhe pedi para me escrever uma letra para o Fado Amora, e é mesmo, mesmo, a minha cara”, assegurou.
A letra refere-se a uma fadista que não se exibe, dando-se a conhecer no seu meio que é casa de fado: “Quem não anda nas revistas/ quem canta porque padece […] vem ter comigo/eu estarei com as guitarras” -.
“O que me faz, verdadeiramente, viver é o fado, e que me é essencial desde os 14 anos quando o comecei a cantar”, disse Vanessa Alves à Lusa.
A fadista afirma-se uma defensora do fado tradicional. “O que as pessoas podem esperar de mim é fado, genuinamente fado”.
“Eu sou uma fadista, e este disco é de fados, essencialmente fados tradicionais, uma verdade muito minha”, sublinhou.
Outro tema escrito para si, que faz parte do alinhamento, é “Lisboa de Camões, Vieira e Pessoa” (José Luís Gordo/Arménio de Melo), que foi a Grande Marcha de Lisboa de 2008.
“O Tempo que Demora”, que dá título ao álbum, é um dos quatro temas de autoria de Vanessa Alves que o interpreta no Fado Latino, de Miguel Ramos.
Os outros temas que assina são “Raiz”, no Fado Corrido, “Mil Maneiras”, no Fado Rosita, de Joaquim Campos, e “Hoje Não”, na “Marcha do [Alfredo] Marceneiro”.
A fadista reconheceu à Lusa que se “sente bastante exposta” a cantar as suas letras. “Mas, por outro lado”, afirma, “se aquele amor ou desamor nos deu inspiração para manter vivo o fado tradicional – e eu só escrevi para fados tradicionais – e não o deixando morrer, mantendo-o atual, acho que é um mal menor, quero lá saber”.
“Ao princípio sentia alguma vergonha de cantar as minhas letras, podia parecer alguma pretensão, mas, normalmente não ligo ao que dizem, e isso passou rápido. De uma maneira geral, sinto-me muito feliz a continuar a dar vida aos fados tradicionais”, acrescentou.
O alinhamento do álbum, que vai apresentar na íntegra no próximo dia 14, no Centro Cultural de Belém (CCB), inclui temas criados por outros intérpretes, nomeadamente Maria da Fé, que para Vanessa Alves “está além de ser uma referência fadista, é uma mãe de fado”.
O álbum abre com “Acordem as Guitarras”, um tema que remete para os tempos da pandemia de covid-19, quando a fadista “o ouvia e repetidamente” e não se podia sair de casa para ir cantar o fado que “é essencial” para a sua vida. “Acordem as Guitarras” (Frederico de Brito) é uma criação de Lucília do Carmo, gravada posteriormente por outros nomes, como Camané.
Do alinhamento também fazem parte “Quando me sinto Só” (Artur Ribeiro/Fado Alexandrino de Joaquim Campos), criação de Fernando Maurício, gravado por outros intérpretes como Mariza, o “Fado Anadia” (Marques dos Santos/José Maria dos Cavalhinhos), criação de Maria Teresa de Noronha, “Barro Divino” (Álvaro Duarte Simões), do repertório de Amália, gravado também por intérpretes como Maria José da Guia e Ricardo Ribeiro.
“Escolhi o ‘Barro Divino’, porque acho que espelha os tempos que vivemos. Este fado tem uma letra que, infelizmente, nunca deixará de ser atual”, afirmou à Lusa, sobre o poema que diz “A revoltante maldade duns poucos/ espalha o ódio à sua volta/ e faz da terra um inferno de loucos/ onde a razão se revolta”.
Outro fado é “Noite Cerrada” (António de Sousa Freitas/Nóbrega e Sousa). Sobre esta escolha afirmou: “Espelha as minhas duas maiores influências”, numa referência à criadora deste tema, Maria da Fé, e a Maria da Nazaré que incluiu o fado no seu repertório. Um tema também recriado por Filipa Cardoso e Vítor Miranda.
Outro que Vanessa Alves recria é “A Rosa que te Dei”, de José Cid, que apontou como “dos melhores cantores e compositores que temos”. A canção que concorreu ao Festival RTP da Canção, em 1974, foi gravada “sem pretensões” por Vanessa Alves acompanhada apenas à viola. Um tema que transporta desde a infância, referiu, e de que gosta muito.
A fadista é acompanhada pelos músicos Bernardo Romão, na guitarra portuguesa, que também produz o álbum, Rogério Ferreira, na viola, e Manuel Vaz da Silva, na viola e viola baixo.
No palco do pequeno auditório do CCB, no próximo dia 14, será acompanhada por Bernardo Romão, Rogério Ferreira e Paulo Paz.
Vanessa Alves começou a cantar fado aos 14 anos e, profissionalmente aos 16, num percurso influenciado por outros nomes, designadamente, Lucília do Carmo, Maria Teresa de Noronha, “obviamente, Amália que é um todo”, Pedro Moutinho, “que ouvi muito”.
“Mas se referisse assim, de imediato, genuinamente, a Maria da Nazaré e o Camané, são as minhas maiores referências fadistas”.
Maria da Fé, porém, é um caso à parte: “É muito difícil falar, está além da referência, não é simples, é um todo, é uma mãe de fado, é com quem me aconselho, desabafo, que me ouve e me apoia”, afirmou.
Vanessa Alves disse que não escolheu o fado, mas este é que a “foi buscar”.
“Eu não optei, eu não queria. Em 1999, quando comecei a cantar fados, era coisa de velhos, era coisa que não era bem vista. O meu marido conhecia-me naquela altura, e só muito depois é que soube que eu era fadista, não queria que soubessem, era uma coisa que era muito íntima”, contou.
“O fado é que me foi buscar. Eu quis parar, parei, mas depois quis. Parafraseando Fernando Pessoa, ‘primeiro estranha-se e depois entranha-se’”.
