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Discurso da Igreja pelos pobres e contra neoliberalismo pode criar divisões internas

25 de novembro de 2025 às 15 h45
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Foto: João Lopes Cardoso/Diocese do Porto

Responsáveis da Igreja católica portuguesa reconhecem que o foco do discurso político da Igreja nas causas sociais e na denúncia do neoliberalismo está a incomodar correntes conservadoras e tradicionalistas, mas a hierarquia considera o caminho inevitável.

A “linguagem da Igreja pode mudar, Cristo nunca muda”, afirmou à Lusa o bispo Armando Domingues, a dias da primeira viagem apostólica do Papa Leão XIV, sob a marca do diálogo ecuménico e inter-religioso, com encontros com ortodoxos na Turquia e com muçulmanos no Líbano.

Armando Domingues recordou que as preocupações com a doutrina social da Igreja são uma prioridade, “mesmo que isso traga questões internas”.

Segundo o presidente da Comissão Episcopal da Missão e Nova Evangelização, têm existido “reações de grupos isolados” que voltam “a falar da tradição, como se a tradição não fosse o evangelho”.

“Penso que o Papa Francisco desmontou muitas resistências e veio-nos colocar no terreno junto das pessoas concretas com as suas dificuldades, com as suas aspirações, com as suas ânsias”, afirmou o prelado.

“Penso que a Igreja está hoje muito sensível para estes problemas da humanidade, desde a ecologia aos extremismos, aos mais pobres, aos desequilíbrios sociais”, acrescentou o prelado, confiando na unidade da Igreja, mesmo quando alguns setores mais conservadores ameaçam uma rutura.

“A Igreja fará o seu caminho, tentando manter a união”, mas “não pode ser com o custo de não cumprir o Evangelho”, que “pede inclusão de todos”.

Por seu turno, o responsável pela Subcomissão de Diálogo Inter-religioso, Adelino Ascenso, considerou que a “Igreja Católica deve ser naturalmente uma igreja unificada, um corpo coeso com muitas ramificações e muitas diferenças de pensamento até ideológico”.

“Isso não é negativo, isso é positivo”, mas “tudo o que pode conduzir a um cisma já é perigoso”, porque isso significaria a “quebra da tal unidade e comunhão”.

O responsável admite que “há correntes que estão próximas do cisma”, mas cabe à hierarquia encontrar caminhos de consenso para que esses movimentos mais tradicionalistas “sejam levados a regressar àquilo que é fundamental e central na Igreja Católica”.

Contudo, “deve-se procurar essa comunhão sem cedências excessivas que coloquem em causa a identidade e relação harmoniosa dentro da Igreja”, avisou o sacerdote, admitindo que o foco em questões sociais ou a abertura à discussão interna sobre a ordenação de casados ou de mulheres levou à construção de “lóbis muito fundamentalistas” dentro das estruturas.

E esses que “gritam cisma são aqueles que se consideram detentores da verdade absoluta”, disse.

“Esses poucos movimentos que estão organizados são financiados por estruturas ideológicas e têm dinheiro”, pelo que “fazem muito barulho normalmente” e “assustam as pessoas”, criando uma imagem de rutura interna que “não existe”, acrescentou ainda Adelino Ascenso.

O Papa Leão XIV inicia na quarta-feira a primeira viagem apostólica do seu Pontificado, com encontros com ortodoxos na Turquia e com muçulmanos no Líbano.

A viagem foi definida pelo seu antecessor, Francisco, no quadro dos esforços de diálogo com os cristãos orientais e com o mundo muçulmano, e Leão XIV tem insistido na continuação dessa política e na defesa da paz num tempo marcado por tantos conflitos.

No domingo, Leão XIV publicou uma carta apostólica a assinalar os 1.700 anos do concílio de Niceia e pediu a unidade dos cristãos, salientando que o encontro que terá com o patriarca de Constantinopla faz parte dessa política de reconciliação, após o cisma ocorrido há mil anos.

Autoria de:

Agência Lusa

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