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Como descalçar a bota?

18 de junho de 2026 às 08 h45

Mil anos de país, mas sem escola para todos.
Em 2143 Portugal fará mil anos como país independente. Tempo mais do que suficiente para sermos um país próspero, com excelente nível de vida, sem pobreza estrutural nem desigualdades gritantes. Não estamos aí – e vale a pena perguntar porquê. A minha resposta é simples: sempre houve escolas, mesmo antes de haver Portugal, mas nunca soubemos construir uma escola para todos. Até hoje.

A primeira escola de que há registo já existia no século XI, antes da nacionalidade. Era uma escola clerical, em Braga, então um centro de grande reputação cultural. Outras escolas foram surgindo em mosteiros, conventos e catedrais, à medida que as ordens religiosas se implantavam no território. Mas eram escolas voltadas para dentro, destinadas à formação de monges, clérigos e, mais tarde, elites letradas. O objetivo era transmitir a fé; o método era a leitura e o comentário de textos bíblicos, que as próprias ordens preservavam e copiavam.

Em meados do século XVI (1540 41), D. João III chamou a Companhia de Jesus para fundar uma rede de escolas estável, com profissionais bem formados e um currículo já orientado para as artes e ciências e para um público mais alargado. Os jesuítas tinham longa experiência na Europa e garantiam qualidade e continuidade. Foi talvez o período mais estável da história da educação em Portugal. Mas o mundo não é perfeito: educavam as elites – clero e nobreza – e o povo continuava fora da equação.

Em 1759, no espírito do Iluminismo, o Marquês de Pombal decidiu criar a Escola Pública ao serviço do Estado. A ideia era boa; o modo, desastroso. Pombal não percebeu a força da Igreja nem a profundidade da religiosidade popular. Ao contrário de outros países onde a Escola Pública nasceu de uma concertação entre Estado e Igreja, permitindo uma transição gradual, Pombal expulsou os jesuítas e gerou um sentimento de revolta que os párocos alimentaram. O povo recusou a “escola do demónio”. O resultado foi um baixíssimo nível de adesão às escolas do Estado. O analfabetismo encontrou aqui terreno fértil.

Em 1834, Joaquim António de Aguiar – o “Mata Frades” – extinguiu por decreto todas as ordens religiosas em Portugal, Ilhas e Colónias, apropriando se dos seus bens e propriedades. O analfabetismo ganhou novo fôlego. Em 1890, os países nórdicos – Noruega, Dinamarca, Suécia, Finlândia – tinham menos de 1% de analfabetos; Portugal tinha 80%. A Dinamarca prolongou a escolaridade obrigatória para 7 anos em 1814 – 150 anos antes de Portugal decretar 6 anos. A Suíça decretou 9 anos em 1875. Comparando níveis de PIB e de pobreza com níveis de analfabetismo, percebemos a medida justa do nosso atraso.

Salazar não curou as feridas. Limitou as escolas primárias às sedes de freguesia, os liceus às capitais de distrito e as universidades a Coimbra, Lisboa e Porto. Resultado: apenas 10% das crianças em idade escolar frequentavam os liceus e apenas 4% chegavam às universidades. O analfabetismo manteve se elevadíssimo ao longo do século XX. Hoje são menos porque a maioria morreu.

O 25 de Abril trouxe boas ideias. A escolaridade obrigatória começou finalmente a crescer, mas sem base de suporte: não havia escolas nem professores para dar corpo a uma ideia luminosa. Imaginem o salto de uma população escolar de 1 para 5 milhões de alunos (cálculo aproximado). Vasco Gonçalves fez bem o diagnóstico: “o problema não está em a escola ser boa ou má; está em que não temos escola para todos”. Hoje diria: não temos professores para todos.

Como descalçar a bota? A bota é a mesma. Descalçá la exige uma decisão que Portugal tem adiado há mil anos: colocar a educação no centro. Se queremos um país diferente em 2143, temos de começar agora. A escola para todos não é um sonho: é uma urgência. E é a única forma de descalçar a bota.

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