O TikToc e São Luís Gonzaga
Eis chegado o momento em que meninas e meninos se aprestam para fazer exames, o que foi desde tempos imemoriais um caso que envolve todas as famílias, os pais claro, e às vezes os avós e até os bisavós, se ainda estiverem vivos.
Eu fiz exame de 3ª classe e escolhi para mostrar a minha aptidão para a leitura (bondade do júri) um texto sobre D. Afonso Henriques que, à época, era um dos meus heróis. Parecidos com ele só mesmo os cinco violinos e o Azevedo, que era guarda-redes do Sporting. Tanto herói foi o D. Afonso que quando me mandaram fazer a prova de desenho livre lá apareceu o primeiro rei, tal como eu o via: magrinho, atarracado, com um instrumento na mão que pretendia ser uma espada e que, com muita bondade, o professor Xanino Galiza considerou que estava muito bom… sei hoje que com um rei assim ainda estaríamos agora a pensar no que fazer à dona Teresa.
Porém as coisas com exames começaram a complicar-se na admissão, ao liceu, com um senhor doutor de longas barbas a fazer o controle da sala. Bem me tinha avisado a minha Mãe: aquilo é muito difícil, vais ter dores de barriga, mas vamos à igreja da misericórdia que há lá o são Luís Gonzaga, padroeiro dos estudantes. Vamos rezar um terço e acender uma velinha. E foi, correu bem, fui aprovado. Mas a partir dessa altura , antes de saírem as notas do terceiro período, lá íamos agradecer a ajuda que o iluminado santo me dava. E nunca faltou, digo eu agora.
Depois abandonei o ritual, percebi que a santidade estava mesmo em mim, desde que estudasse, e fazia orelhas moucas à minha Mãe que, tendo deixado de me acompanhar, não se esquecia de dizer que passasse pela igreja, a pedir ajuda ou a agradecer o êxito. Bem modesto, às vezes.
Felizmente não tinha nota negativa a canto coral, porque o bom do professor Godofredo me aconselhara: canta mentalmente para não estragares o que os teus colegas estão a fazer. E lá me dava o dez. A desenho a coisa era mais complicada, porque o professor Nefetali jamais me ensinou a pegar no pincel e arrumava sempre comigo no fim de cada período. Era certinho: lá vinham o 7, o 8 ou o 9, que me levava a pensar que o santo provavelmente não admiraria o meu valor artístico e me abandonasse à fúria do professor, com toda a certeza para sancionar os nomes que, em surdina, eu chamava ao “mestre”.
Independentemente do que se pensar sobre exames (servem para quê? Refletem mesmo o que os alunos aprenderam? Dão descanso à sociedade dizendo que está a ser avaliada a qualidade do ensino? Explicam que os ministros digam que estão a tornar mais exigente o ensino?) a verdade é que, chegada a altura, lá temos os alunos a caminharem para a escola como quem vai para a tortura. Já não vestem fato nem põem gravata, nem se arrumam com o melhor vestido do guarda-roupa da casa, levam o telemóvel no bolso de trás das calças, ténis mais ou menos lavados, vão na maior. Vai ser fixe, mano. E talvez nem saibam que o São Luís Gonzaga os podia ajudar neste aperto, na versão católica da minha Mãe.
Mas, entretanto, leio por aqui, pelas redes sociais que não existiam nos tempos gloriosos do meu Afonso Henriques, que se dão explicações por tais vias modernas, o que quer dizer que não se limitam apenas a publicitar explicações. Dão explicações!
Parece que o TikTok vai à frente, com boa nota. É assim um serviço do tipo façam o favor de perguntar o que quiserem que nós respondemos. Explicações com um aplicado senhor já eram, quem delas vive faz o favor de mudar de profissão. E a questão muito interessante para discutir nos tempos próximos é se a ( maltratada!) inteligência artificial pode ou não se substituir ao santo nas explicações pormenorizadas das matérias que emperram os conhecimentos ou se, a pedido, respondem àquilo que for questionado. Tiram dúvidas, planificam o estudo, trocam impressões entre candidatos, prometem acalmar a ansiedade.
Tenho a certeza de que tudo isto vai levar uma volta grande nos tempos próximos e os exames como hoje os configuramos terão os dias contados.
Não sei se ainda vou a tempo, mas gostava de ver…
