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Chegado Setembro, falamos de vinho

12 de setembro de 2026 às 09 h15

A imagem da gastronomia de Portugal está, inseparavelmente, ligada a esta ancestral bebida fermentada. Alguns de nós ainda preservamos umas dezenas de pés de videira para produção de vinho caseiro. Nos restaurantes, as cartas de vinhos portugueses não param de aumentar, havendo sempre lugar para o bem conhecido “vinho da casa”, mais em conta para os bolsos da maioria. Um fenómeno bastante curioso que, nos últimos anos, levou reconhecidas adegas nacionais a comercializar algum do seu vinho mais comum em formato “box” e que hoje commumente identificamos em vários restaurantes de várias gamas.

A nível turístico, o vinho é assumido como um dos mais relevantes ativos do país. Uma aposta que, ao longo dos anos, é validada pelo reconhecimento internacional da qualidade das produções nacionais e pelo aumento da procura, pelos turistas, por vinho português e por experiências turísticas a si associadas.

Mas não estamos sozinhos. E nem sequer somos únicos ou especiais nesta ligação cultural ao vinho. Uma ligação, diga-se, que precisa de muita, muita moderação. A Ciência tem demonstrado que a ingestão de qualquer quantidade de álcool é prejudicial à saúde humana. Alertas e avisos que, naturalmente, têm provocado alterações nos padrões de consumo, aumentando de ano para ano a oferta de vinhos sem álcool.

Parece ser bastante contraditório, produzir vinho sem álcool. Contudo, é um fenómeno que demonstra bem a intrínseca relação que estabelecemos com esta bebida. Uma relação que, pelo menos, tem mais de 2000 anos.

Tudo começa com a chegada das comunidades romanas à Península Ibérica, há cerca de 2200 anos. Os habitantes autóctones, os povos iberos e celto-iberos, conheciam a uva mas não o vinho. A sua bebida predileta era uma espécie de cerveja, mistura fermentada de água e cereais. Os Romanos adquiriram o gosto pelo vinho através dos Gregos, cultura que lhes serviria de modelo. Já os Gregos teriam as suas origens ligadas a comunidades da Ásia Ocidental que, pelo menos há 8000 anos, produziam o sumo de uvas fermentadas.

Mas porquê o vinho? O que tornou o vinho tão simbólico para as civilizações e culturas do Mediterrâneo há 8 milénios atrás?
A possível resposta vem de um dos mais antigos livros do mundo, a história de Gilgamesh, escrita por volta dos anos de 2800-2500 antes de Cristo na região do atual Iraque.

Nesta conta-se a epopeia de Gilgamesh, um rei tirano, semi-deus, que, como punição divina, é enfrentado por um selvagem, Enkidu. Esta criatura acaba por se tornar amigo do rei, deixando a sua vida selvagem, civilizando-se, depois de comer pão e de se inebriar com várias taças de vinho que, diz-nos a epopeia, “é o costume da terra”.

Um episódio mítico, longínquo do nosso presente mas que reflete o simbolismo original do vinho: o vinho só existe porque o ser humano o inventou e, tal como o pão, o azeite ou o queijo, representa o poder do engenho humano sobre a Natureza e a sua imprevisibilidade.

Um simbolismo que foi sendo transmitido por centenas de gerações ao longo de vários séculos e que deixou as suas marcas nas culturas influenciadas pelas grandes civilizações clássicas do Mediterrâneo, como o caso de Portugal.

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