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A crise da democracia

12 de setembro de 2026 às 10 h15

A crise da democracia, hoje como antes, é uma crise da ideia de representação.
Em 1930, Ortega y Gasset, em A Rebelião das Massas, anunciava a possibilidade, na sua opinião ainda evitável, de uma catástrofe no continente europeu. Um dos fatores precipitantes seria o domínio do homem – massa, o homem politicamente sem qualidades, portador de uma mentalidade de rebanho, apta à sua adesão aos emergentes totalitarismos fascista e estalinista.

Um pouco mais tarde, em 1942, Simone Weil, em Nota sobre a Supressão Geral dos Partidos Políticos expõe cruamente as dinâmicas de poder e hierarquia que nascem no quadro do “espírito de partido”, com a opinião a sobrelevar a verdade, alimentada pelo seguidismo e pela propaganda. Weil entende que a verdadeira política, aquela que se ordena ao bem comum, só acontecerá quando os partidos saírem de cena.

Para Weil o partido é “uma pequena igreja profana armada com a ameaça de excomunhão”, uma fábrica de paixões coletivas constituída para “matar nas almas o sentido da verdade e da justiça”.

Não há em Weil qualquer apologia dos partidos únicos. Existe, antes, a denúncia da sua completa dissolução de instâncias de mediação entre a comunidade política – o povo – e o aparelho estadual de poder.

Dito de outro modo: os partidos, convertidos em máquinas de conquista e de manutenção do poder, não concretizariam a ideia de “governo do povo, pelo povo, para o povo”, substituída pela nua realidade do “governo do aparelho, pelo aparelho, para o aparelho”. Donde, a sua existência não assegurar, por si, o ideal de autogoverno que, para Isaiah Berlin, sob a fórmula de liberdade positiva, constitui um dos elementos nucleares da democracia.

Cem anos volvidos sobre os escritos de Ortega y Gasset e de Simone Weil, e oitenta sobre o final da segunda guerra mundial, a crise de representação dos partidos políticos, um dos indiscutíveis fatores da catástrofe, reapareceu em força no continente europeu.
É certo que a história nunca se repete. Até se voltar a repetir.

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