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Camões, já houve menos

11 de junho de 2026 às 10 h15

Quer dizer, há mais camões para além do Luiz Vaz. O Porphyrio porphyrio é uma ave aquática, semelhante às Galinhas-d’água, muito vistosa, azul quase metálico, com um bico vermelho exuberante. O seu nome vulgar mais conhecido actualmente é Caimão, sendo que terá sido uma evolução fonética de Camão. Há quem defenda que o apelido Camões lhe esteja relacionado.
Estando ou não, o certo é que o Caimão tem uma história épica que não desluz do Luiz Vaz.

O Caimão vive em zonas húmidas e teve uma distribuição por todo o litoral oeste, sul e este da península Ibérica, uma espécie de distribuição em U. no século XX verificou-se uma regressão geral da espécie, desaparecendo de diversos locais, muito por destruição das zonas húmidas e também por caça. Na zona centro o último foi avistado no Baixo Mondego em 1975. Em toda a península ficou restrito ao parque Nacional de Donhana, em Espanha, e a uma mão cheia de casais na Reserva Natural da Ria Formosa.

Nos anos 90 registou-se alguma recuperação mas com dificuldade em passar para Norte, pois muitas das zonas húmidas tinham desaparecido, via-se ser dificil o seu regresso à região Centro, especialmente aos paúis entretanto protegidos como reserva natural, o paul de Arzila, ou como rede natura, os pauis do Taipal e da Madriz.

Ora e se lhes déssemos um empurrãozinho? Em conservação da natureza é-se muito «conservador», o que é apropriado. Para se fazerem intervenções tem que se perceber os porquês. No caso de reintroduções têm que se reunir um conjunto de condições. Desde logo saber as causas do desaparecimento e se essas causas se mantêm ou não. As causas eram conhecidas, destruição de zonas húmidas e caça, entretanto existiam zonas húmidas protegidas e a espécie não era caçável (duas luzes verdes)

Depois saber se poderá haver um regresso natural, se há áreas intermédias com condições para essa expansão. Na situação não havia expectativa de, a curto médio prazo a espécie conseguisse essa expansão (outra luz verde).

Também se há populações dadoras com capacidade, ou criação em cativeiro. Havia um projecto de reprodução com sucesso em Valência (luz verde)

Por fim, se a conservação da espécie ganharia com um aumento da área de distribuição e do número de indivíduos. A espécie tinha um estatuto de ameaça de Vulnerável, o que justificava intervenção precisamente para esses critérios (mais uma luz verde)

Confirmadas todas as luzes em verde, nos finais dos anos 90, estavam então reunidas as condições, para a Zoologia da Universidade de Coimbra e o Instituto da Conservação da Natureza submeterem um projecto a financiamento europeu, pelo Programa Life, para a reintrodução do Caimão no paul de Arzila.

Na Mata Nacional do Choupal criou-se um centro de reprodução, com casais cedidos pelo programa de Valência. E foram libertados indivíduos provindos de Donhana. Nos Pauis de Arzila, Taipal e Madriz, foram feitas acções pévias de melhoria de habitat, desde criação de clareiras a transplantações de tabúa.

A espécie vingou, e expandiu-se para a Ria de Aveiro, Paúl do Boquilobo, Paúl da Tornada, estuários, estando o seu estatuto de ameaça actualmente como NT (não ameaçado)

São intervenções que exigem um conhecimento técnico-científico e preparação prévia muito sólidas e algum financiamento. Só foi possível pela existência de áreas protegidas adequadamente geridas, com um corpo técnico competente e ligação a investigadores universitários com essa capacidade de actuação. E, crucial, um financiamento. Sem o programa LIFE tal não teria sido possível, pois não sendo grande o custo, nunca se verificaria a existência de orçamento.

E isto está em causa. A Comissão Europeia pretende acabar com a existência autónoma deste programa, diluindo-o no quadro multianual. Ora tratando-se de conservação era importante, como atrás referido, que fôssemos «conservadores» nestas intervenções, verificássemos as causas e as consequências. Nesse sentido foi lançada uma petição ao Parlamento Europeu em defesa dessa discussão. Se quiser pode juntar-se em: https://www.change.org/p/stand-with-life.

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