Bienal promove visitas à Fábrica das Sombras e divulga arte de George Bures Miller
Foto: Jorge das Neves
As obras de «A Fábrica das Sombras»
Até 5 de julho, no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, pode visitar a exposição «A Fábrica das Sombras», apresentada no âmbito do Anozero’25 Solo Show. A mostra propõe um percurso imersivo pelo universo sensorial de Janet Cardiff & George Bures Miller, dois dos mais influentes artistas contemporâneos no campo da arte sonora e multimédia.
Reconhecidos internacionalmente pelas suas instalações site-specific e pelas experiências áudio e vídeo que criam, os artistas — que vivem e trabalham no Canadá — apresentam 13 obras que ocupam e transformam o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, desafiando a perceção do espaço e ativando novas camadas de escuta e interpretação.
A exposição pode ser visitada de quarta a domingo, das 11H00 às 19H00, com entrada livre.
ESTA SEMANA
Visita orientada com o artista José Maçãs de Carvalho hoje, 30 de maio, às 16H00, e visita com a equipa de mediação amanhã, dia 31, que, excecionalmente, se realiza às 14H30.
Ainda amanhã, às 16H00, terá lugar a apresentação da residência artística «Arte contemporânea e transdisciplinaridades», com a participação de Cristina Janicas, Jorge Cabrera, Maria Jorge Ferro e António Cerdeira.
Durante esta apresentação, será lançada a publicação Fórum de Arte e Educação: Professores, podemos falar de descolonização?, com textos de António Cerdeira, Carlos Antunes, Carlos Garrido Castellano, Fernanda Belizário, Jorge Cabrera Gómez, Julião Soares Sousa, Maria Jorge Ferro, Maribel Sobreira e Teresa Sá. A edição inclui ainda uma entrevista aos curadores do Anozero’24, Ángel Calvo Ulloa e Marta Mestre.
O Fórum de Arte e Educação foi um espaço criado no Programa Educativo do Anozero’24 – Bienal de Coimbra como contributo da bienal para a construção de conhecimentos a partir da convergência de saberes em coletivo.
Esta publicação documenta um momento intenso, cheio de emoções impossíveis de traduzir por escrito, mas que pedem para ser memória.
Todas as iniciativas são de entrada livre.
Semanalmente, destacamos uma das obras que compõem «A Fábrica das Sombras» — num convite contínuo à descoberta desta exposição única.
Counting (1–1000), 2004–2025
Janet Cardiff & George Bures Miller
Montado numa torre de telecomunicações desativada, no exterior do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, está um altifalante voltado para a cidade de Coimbra, à qual anuncia a contagem dos números de 1 até 1000. Chegado ao final, recomeça.
Assim parece ser a natureza do tempo e da vida, diz a profecia em jeito de conceito filosófico ― the eternal return ―, o que é voltará a ser, uma e outra vez. Nesta audioinstalação, contudo, importa menos a ameaça de que ao início regressaremos do que a sensação angustiante do seu processo: a contagem cadenciada que, tal como o tiquetaque do relógio, soa sempre a prenúncio do fim.
A numeração, relembram-nos Cardiff e Bures Miller, é a imagem filosófica e espiritual da progressão da cronologia, ou da existência humana, já que o tempo, tal como o vivemos e criamos, é o compasso progressivo para o desaparecimento de tudo quanto existe.
Acordemos para a presença incontestável do «relógio» global, cujas badaladas avivam o estado do mundo ― alarmante e movediço, em acelerada desintegração. A escolha desta localização reforça as implicações das telecomunicações no atual contexto geopolítico, alimentando quer sistemas de defesa, quer mecanismos de controlo e repressão. Uma mensagem que não se encerra, porém, na universalidade, ela pode afirmar esta casa e desadormecer a cidade: a despedida do Mosteiro é iminente.
Entenda-se Counting como exortação: o que acontece com o mundo acontece connosco. E o problema ― ou o ânimo ― é que somos e estamos quase a deixar de ser.
Desde a sua fundação em 2015, o Anozero — Bienal de Coimbra tem afirmado um modelo único de colaboração entre o Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, a Câmara Municipal e a Universidade de Coimbra, trazendo à cidade exposições e artistas que desafiam as formas tradicionais de pensar, fazer e experienciar arte.
