As lantejoulas que ficam a sujar o chão no fim da festa
Sean Combs, rapper e produtor musical norte-americano, mais conhecido por P. Diddy, tem enchido as páginas de jornais de todo o mundo, há semanas. Em causa está o maior escândalo da indústria do entretenimento dos últimos anos. Até ao momento, Combs foi acusado de agressão sexual por 120 pessoas – incluindo 25 menores na altura dos acontecimentos – mas tudo indica que a lista venha a aumentar: há cerca de 100 outros casos em análise. E embora o nome de P. Diddy esteja no centro da história não é o único. A lista de pessoas envolvidas na rede de crimes tem dezenas de nomes – muitos dos quais “conhecidos”, dizem os jornais. Sean Combs não é novato nas andanças mediáticas. Por vários motivos – muitas vezes, por maus motivos – o seu nome tem vindo a público, impresso ou escrito em títulos gordos nas páginas online dos jornais, milhares de vezes, sempre enquadrado num mundo de brilho e de lantejoulas, com ele rodeado de gente bonita. Até há poucos dias, antes de o mundo confirmar o que há muito suspeitava sobre os bastidores de podridão da sua vida de famoso, Sean Combs era uma intocável estrela do nosso tempo: era famoso, tinha amigos famosos, milhares de fãs e de seguidores.
Desde que foi detido, em Setembro, não param de chegar à investigação novas suspeitas, desde tráfico sexual a extorsão, passando por agressão sexual violenta, violação e relações sexuais facilitadas por drogas, divulgação de gravações de vídeo e abuso sexual de menores – há de tudo um pouco nesta caderneta de horrores. A lista de vítimas inclui homens e mulheres, com idades entre os 9 e os 38 anos. Foi criada uma linha telefónica de crise para as vítimas, que já recebeu quase 3.500 telefonemas de pessoas que dizem ter sido vítimas ou testemunhado crimes do rapper norte-americano. Os advogados garantem que há fotografias, vídeos e mensagens que provam um segredo “que não era de todo um segredo”. Caso seja considerado culpado, Combs pode ser condenado a prisão perpétua.
As vítimas jovens eram, na sua maioria, adolescentes que queriam entrar na indústria. Combs seduzia-os com a promessa de fazer deles a próxima grande estrela. Foi assim que transformou um império musical numa máquina de crimes, violência, exploração sexual e impunidade. Os abusos terão ocorrido entre 1991 e 2024: durante mais de trinta anos. A primeira acusação formal de abuso sexual partiu de uma ex-namorada que vimos, há uns dias, num vídeo divulgado pela CNN americana: incrédulos, assistimos ao rapper a arrastá-la pelo chão de um corredor de hotel – onde poderia facilmente ser visto – depois de a atirar ao chão e agredi-la com socos e pontapés.
P. Diddy é um nome poderoso na indústria musical americana, onde subiu a alta velocidade: passou rapidamente de estagiário a produtor e depois a diretor e dono de uma grande produtora. No início dos anos 2000, no ponto alto da sua carreira, era conhecido por dar algumas das festas mais concorridas do showbiz, onde participavam muitos “famosos das revistas” e até alguns políticos. A natureza destas festas sempre levantou suspeitas, mas nunca ninguém as investigou – afinal, era um mundo de brilho, lantejoulas e gente bonita. Em 2017, a revista Vogue, na reputada edição americana, publicou um perfil do rapper. O perfil destacava o seu especial interesse por diamantes. A Universidade Howard, onde Diddy estudou, mas nunca concluiu o curso, tinha-lhe atribuído um título honorário, que agora retirou. Não terá sido, certamente, pelos seus feitos académicos ou sequer pela sua carreira. A Universidade fez o que todos fizeram: premiou o brilho e as lantejoulas e o facto de ele se rodear sempre de gente bonita. Chegou a ganhar um Grammy e, não há muito tempo, a simbólica chave de Nova York – cidade onde foi preso – que, agora, o mayor lhe pediu de volta, porque se apagou o brilho e já não há gente bonita à sua volta.
Num de seus álbuns mais famosos, “No Way Out”, de 1997 – o álbum que lhe valeu o Grammy de melhor álbum de rap – ouvimos Combs cantar, numa das músicas, “ain’t nobody’s hero, but I wanna be heard [não sou o herói de ninguém, mas quero ser ouvido]”. Ele não tinha nada para dizer, mas queria ser ouvido. E como ele vivia rodeado de brilho e gente bonita, fizemos mais do que ele pediu: fizemos dele um herói. Agora, é preciso apanhar as lantejoulas que ficam a sujar o chão no fim da festa.
