Antiga colisão na Lua pode explicar assimetria
Muito se falou nas últimas semanas do regresso do voos tripulados à Lua. Voltámos a falar muito da sua face oculta, graças às bonitas imagens que a missão Artemis II nos enviou. A face oculta da Lua é o seu “lado de trás”, o lado que nós da Terra nunca vemos devido à interessante particularidade de o período de rotação da Lua sobre si própria ser igual ao seu período orbital em torno da Terra — é, na verdade, uma tendência natural de qualquer lua em torno de um planeta. Isso faz com que estejamos a ver sempre a mesma face. Não está é toda sempre iluminada, claro. Durante a lua cheia vemo-la toda. No quarto crescente, vemos metade. No quarto minguante vemos a outra metade. Na lua nova, não vemos nada porque está escuro, ou seja, nesse momento o lado da lua virado para nós (que é sempre o mesmo) não está a ser iluminado pelo sol e por isso não vemos nada (mas com radar ou infravermelho podemos “vê-lo”).
Curiosamente, embora em português sempre se tenha dito face oculta, devido à tradução literal do inglês, tem aumentado o uso da expressão lado escuro da lua. Essa expressão induz em erro, fazendo-nos crer que o lado da lua que não vemos (a partir da Terra) nunca é iluminado pelo sol. Isso não é correto. A face oculta é tão frequentemente iluminada pelo sol quanto a face visível. Nós na Terra é que não temos ângulo de visão para a ver.
Só a 7 de outubro de 1959, pela sonda soviética Luna 3, foram obtidas as primeiras imagens de sempre da face oculta da lua. Devido a dificuldades de transmissão, só a 18 de outubro as pudemos ver. À luz dos equipamento de hoje, a qualidade dessas imagens era baixíssima, claro, mas foram as primeiras e foram suficientes para se perceber de imediato que havia uma clara assimetria na lua: a face oculta tem menos mares do que a a face visível. (Os mares são aquelas partes mais escuras que parecem ser grandes lagos e que são, na verdade, planícies de lava há muito solidificado.) Desde então, o porquê tem sido um constante debate.
Até 2019, todas as missões tripuladas ou robóticas tinham alunado na face visível. Mas a 3 de janeiro desse ano a Agência Espacial Chinesa (CNSA) fez alunar a missão Chang’e 4 na face oculta com o seu rover Yutu-2. A 1 de junho de 2024, foi a vez da Chang’e 6 alunar também na face oculta, tendo enviado amostras para a Terra que nos chegaram a 25 desse mês. E é precisamente graças a essas amostras que foi recentemente publicado na revista “Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America”, um estudo, liderado por Heng-Ci Tian, do Instituto de Geologia e Geofísica da Academia das Ciências Chinesa, que sugere que a assimetria das duas faces da Lua está ligada à colisão de um asteróide.
Há cerca de 4300 milhões de anos, um asteroide de aproximadamente 200 km de diâmetro colidiu com a Lua, na região do seu pólo sul. Estima-se até que em vez de embater quase verticalmente, a 90˚ de inclinação, ele bateu com uma inclinação de apenas 30˚. Esse impacto criou a enorme Bacia do Pólo Sul — Aitken, com cerca e 2400 km de diâmetro. Sendo uma bacia muito antiga já tem sobre si muitas crateras de vários tamanhos criadas posteriormente. Mas a conclusão da equipa de Heng-Ci Tian é que a enorme colisão que criou a bacia levou à evaporação de grande parte dos compostos químicos mais facilmente evaporáveis. A falta desses compostos químicos levou a que fosse mais difícil gerar magma e erupções vulcânicas na face oculta da lua depois e, por isso, essa face oculta tem menos mares do que a face visível.
Como sempre, esta nova hipótese estará sujeita a um grande escrutínio até que consigamos ter a certeza, ou quase certeza, de qua assim foi. Até lá, certamente que outras hipóteses aparecerão.
