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O Big Other digital: vigilância, poder e instrumentalização

22 de setembro de 2026 às 09 h30

O “Homo sacer” é uma expressão da língua latina, figura obscura do direito romano arcaico, associada à condição do sujeito que cometia um delito contra a divindade, colocando assim em risco a pax deorum, ou seja, a amizade entre as coletividades e os deuses, considerada a garantia superior de paz e prosperidade da civitas. Isto significava que a transgressão ou violação da lei constituía uma ameaça contra o próprio Estado. Como corolário, o indivíduo era marcado pelos deuses e deixado à sua vingança. Afastado e expulso da sociedade, despojado de todos os direitos civis, o sujeito ostracizado ficava à mercê de qualquer um. O Homo sacer significava, à época, literalmente “homem sagrado”; contudo, em sentido ambíguo e complexo, era excluído das esferas religiosa e política, perdia a proteção da lei e da comunidade, podendo inclusivamente ser morto sem quaisquer consequências legais para o agressor.

Adicionalmente, Slavoj Žižek (1949-), Hannah Arendt (1906-1975), Giorgio Agamben (1942-) (conhecido pelas suas investigações sobre o estado de exceção e Homo sacer) e Zygmunt Bauman (1925-2017), criador do conceito de modernidade líquida, utilizaram conceitos filosóficos e sociológicos para expressar a condição de alguns povos contemporâneos.

Atualmente, o denominado “Homo digitalis” reflete a influência crescente da tecnologia digital na vida humana e na sociedade, com implicações profundas na nossa identidade, nas formas de interação e, inclusivamente, no modo de pensar do ser humano. É uma noção que descreve a adaptação e a integração passiva do ser humano no mundo digital, ou seja, a crescente integração do indivíduo no ambiente binário, no qual as ferramentas digitais absorveram uma grande parte da vida quotidiana dos seres humanos. Esta realidade tende, potencialmente, a afetar a sua identidade e a sua perceção própria, cenário que exige sentido crítico, capacidade de avaliação da informação e necessidade de reflexão. Na verdade, o termo digitalis aconselha a pensar sobre a nossa relação com a tecnologia digital, bem como sobre as suas consequências para a vida individual e coletiva. O Homo digitalis expressa o Zeitgeist, ou seja, representa o espírito do nosso tempo, que se expressa através de uma linguagem que não é meramente comunicativa ou informativa, mas consequência de um emaranhado de relações simbólicas de onde emerge o sujeito como significante para outros sujeitos. Jacques Lacan (1901-1981), psicanalista francês, na década de 1950, refletiu sobre as relações contemporâneas entre o sujeito e as tecnologias e admitiu que o inconsciente está estruturado como linguagem cibernética. Como matriz da informática, considera a comunicação como uma espécie de economia energética e constrói máquinas com aptidão para fazer o cut-off entre a lógica matemática subjacente e uma interface amigável, em meio físico ou magnético. Isto significa que o aparelho psíquico funciona através de um cérebro biométrico que segrega uma massa de sentimentos e opções lógicas pré-linguísticas de onde emergem as representações.

O “eu”, dentro da cibernética, é um estado emergente. Adicionalmente, o psicanalista sugere que o “eu” não é absoluto, mas apenas um artifício da linguagem e da cultura, tanto mais que os gregos não tinham ideia do “eu”, assim como outras culturas. Assim sendo, para Lacan (1957), o “eu” constitui-se a partir de uma estrutura simbólica e surge da triangulação entre o remetente, o destinatário e aquilo que se chama “Outro”, que é o laço ou a estrutura que conecta, mas que também condiciona.

Justificado o termo Big Other, cunhado por Shoshana Zuboff (2018), o vocábulo reflete as consequências do comportamento mediado por computador, em que a lógica do fiado se resolve com a aceitação do cartão de crédito, onde praticamente toda a vida financeira da pessoa fica detalhada. Na lógica do Big Other, a pretexto da segurança e da eficiência, as relações humanas estão a ser estruturadas pela impessoalidade digital das ferramentas tecnológicas e, assim sendo, no contexto atual assim gerado, o laço social desaparece. O resultado parece ser uma alucinação coletiva, uma histeria em massa ou folie à plusieurs (loucura de muitos), fenómeno sociopsicológico expresso pela manifestação dos mesmos sintomas, ou de sintomas semelhantes, numa grande diversidade de pessoas. No estado referido, as massas tendem a produzir a folie à plusieurs, fenómeno sociopsicológico alavancado pelas ferramentas tecnológicas controladas pelos overlords digitais, que descarregam imagens sintéticas, memes, teorias conspiratórias e símbolos, com o objetivo de controlar e lucrar com os procedimentos humanos.

É a isto que se resume o capitalismo de vigilância: manipula a loucura coletiva e cria uma espécie de prisão digital, na qual o conjunto dos sujeitos que integra a sociedade, numa lógica de passividade confrangedora, disponibiliza dócil e gratuitamente os seus dados e as suas existências virtuais. Trata-se do Grande Outro digital que, de maneira fria e impessoal, normaliza os relacionamentos do mundo real, num universo em que tudo está conectado com tudo e mediado por controlos algorítmicos, envolvente em que se aniquilam definitiva e irreversivelmente os sonhos utópicos.

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