2046
A vinte minutos da minha casa, numa colina sobre Lausanne, há um campus chamado Biopôle. Em 2004, o cantão de Vaud e dois municípios fundaram uma sociedade sem fins lucrativos para juntar no mesmo sítio o hospital universitário, a universidade, a investigação do cancro e as empresas que vivem da ciência dos três. Vinte anos depois: mais de três mil e quinhentas pessoas, cerca de cento e cinquenta empresas, milhares de milhões de francos captados e dezenas de produtos no mercado. Hoje chamam àquela região Health Valley.
O segredo não foi dinheiro, foi geometria. Concentrar fisicamente o que estava disperso e criar uma entidade profissional para tratar da única coisa que os edifícios não fazem sozinhos: pôr hospital, academia e indústria a trabalhar como um só organismo. É por isso que vale a pena reparar no que está a nascer em Cernache. O Portugal Life Science Park, promovido pela Bluepharma com a Câmara, a Universidade e a ULS de Coimbra propõe-se instalar num único recinto farmacêutica, biotecnologia, med-tech e produção avançada: 76 mil metros quadrados de laboratórios e indústria, a meio caminho entre Lisboa e Porto.
A geometria de Vaud, transposta para o Mondego. E Coimbra tem algo que Lausanne não tinha: uma indústria farmacêutica de raiz local a servir de âncora, faculdades de Medicina e Farmácia com séculos de escola, e custos europeus competitivos. As peças não faltam; faltava o tabuleiro. Falta agora a parte invisível, que é a mais difícil: paciência institucional.
O Biopôle demorou duas décadas a dar frutos e sobreviveu a ciclos políticos porque nunca foi projeto de um mandatos e foi infraestrutura de uma geração. Se Coimbra tratar Cernache com a mesma seriedade, em 2046 alguém escreverá, de Lausanne, com inveja do Health Valley de Cernache.
