opiniaoVisões de Coimbras

Fizeram bonito, Cabo Verde

10 de julho de 2026 às 10 h15

Cabo Verde estreou-se num campeonato mundial de futebol, com uma prestação que não deixou ninguém indiferente. Depois de defrontar a Espanha, o Uruguai e a Arábia Saudita e empatar com os três, em jogos muito renhidos, o quarto jogo, com a Argentina, acabou por ditar o fim da caminhada para a equipa estreante, que perdeu por 3-2, mas deu luta até ao fim da partida. Sem nunca se encolher perante a gigante Argentina, Cabo Verde encostou a equipa de Messi às cordas, até ao último minuto, e pôs meio mundo a torcer por um golpe de sorte que igualasse o marcador. E só faltou mesmo sorte, porque tudo o resto os tubarões azuis levaram para dento do campo.

Cabo Verde chegou ao Mundial de Futebol com pouco mais do que um sonho. Não tinha estrelas mediáticas, nem jogadores internacionais milionários, vindos das maiores equipas mundiais. Não trazia uma numerosa equipa técnica, não tinha grandes recursos e estava longe dos primeiros lugares nas listas dos favoritos. Mas tinha um sonho. E a sonhar estamos todos em pé de igualdade, partimos todos do lugar da esperança, um lugar sem fronteiras, nem mapa, que podemos encontrar dentro de nós, quer tenhamos nascido na Europa, em Nova Iorque ou num arquipélago no meio do Atlântico. Foi a esse lugar que aqueles jogadores foram buscar a força e a garra que vimos em cada jogo, mas também a morabeza que vimos em campo, a dignidade com que iam saltando cada novo obstáculo.
Os tubarões azuis entraram quatro vezes em campo, neste Mundial. Jogaram contra a atual campeã mundial e com duas antigas campeãs do mundo, sempre de igual para igual. Humildes, mas de cabeça erguida. A luta, a perseverança e a paixão desta equipa recordou-nos uma das grandes lições do desporto, uma lição que, num mundo que parece só ter espaço para os vencedores, tendemos a esquecer: perder não é necessariamente ser derrotado.

No fim do jogo, o guarda-redes Vozinha, a figura principal da equipa, era a imagem da dignidade. Percorreu o campo a levantar cada um dos colegas que se deitaram no chão a chorar. Podiam chorar, mas levantados. Quando os jornalistas lhe deram a palavra não titubeou: “nós somos um país pequeno, mas sabíamos que vínhamos aqui para competir e há muita qualidade na nossa Seleção. Talvez muitos achassem que os jogadores de Cabo Verde não eram bons o suficiente, mas nós viemos mostrar que temos muita qualidade e que os nossos jogadores podem jogar em qualquer lado, nas grandes competições, nas grandes ligas. Crescemos com muitas dificuldades. Os nossos pais e avós sacrificaram muito para nos criar e acho que nós conseguimos mostrar a resiliência do povo cabo-verdiano, a paixão que temos pelo nosso país. Estamos aqui para representar os cabo-verdianos espalhados pelo mundo. Nós somos pequeninos, mas temos corações grandes. E somos lutadores. Somos lutadores”.

O futebol nem sempre é justo e o marcador também não. Já diz a máxima futebolística: ganha quem marca. Mas o percurso de Cabo Verde neste Mundial é motivo de orgulho para o país e para todos os que gostam de futebol. O que aqueles homens fizeram em campo, e para lá dele, dignifica o desporto, a competição e, de certa forma, a humanidade. Vi o fim do jogo num café cheio de gente, com todos a torcerem por Cabo Verde.

Depois do apito final, a após uns breves segundos de tristeza, toda a gente começou a bater palmas, num aplauso que durou minutos. As palmas não eram para os vencedores. Poucas derrotas ficam na memória, porque a memória, bem sabemos, costuma preferir quem ganha. Mas perder não é necessariamente ser derrotado. Às vezes, são os mais pequeninos que têm os maiores corações. Fizeram bonito, Cabo Verde. Merecem todas as palmas. Até as mais raras: aquelas que só recebem os que não se deixam derrotar.

Deixe o seu Comentário

O seu email não vai ser publicado. Os requisitos obrigatórios estão identificados com (*).


Últimas

opiniao

Visões de Coimbras