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Síndrome da papoila alta

23 de junho de 2026 às 10 h15

Depois de uma década fora, olho para Portugal com saudade, orgulho e pena pelo que poderíamos ser. As causas são complexas, mas há um traço cultural que nos trava: o negativismo com que mandamos abaixo quem se destaca, tenta fazer diferente ou chega mais longe.

Curiosamente, a Austrália tem algo parecido: “síndrome da papoila alta”, a tendência de cortar quem cresce demasiado. A diferença é que aqui se desconfia de quem se acha superior, mas respeita-se quem tentou, competiu, trabalhou e arriscou – quem teve um “fair go”.

Em Portugal, o sucesso depressa se transforma em cunhas, herança, corrupção ou sorte. Raramente se assume trabalho, risco e competência, e quem vem de fora é muitas vezes melhor por definição. Na Austrália, pergunta-se: como chegou lá e como posso lá chegar também?
Pequenas diferenças, grandes consequências.

Vejamos Nuno Matos, português e CEO do ANZ, um dos quatro grandes bancos australianos. Quando foi anunciado, em Portugal houve poucas notícias, quase todas na imprensa económica e quando tomou posse, desapareceu. Na Austrália, foi tratado como alguém chamado para mudar um dos bancos mais importantes do país.

Curiosamente, teve tanto ou mais destaque em Portugal quando o ANZ cometeu um erro de comunicação interna e alguns colaboradores souberam por email, antes da comunicação formal, que seriam despedidos.

O futebol é outro espelho. Basta um empate da seleção para passarmos de cachecóis na rua e gritos de “vamos ser campeões” a desastre nacional e culpas fáceis (hoje oRonaldo; amanhã será o maior nome da altura); ignorando a conjuntura, caminho percorrido, e jogos para vir.

As Matildas chegaram ao mundial de 2023 para ser campeãs, mas perderam 3-1 com Inglaterra nas meias-finais; Sam Kerr tinha um estatuto semelhante ao de Ronaldo, e o país não a culpou – agradeceu-lhe por terem feito história.

Uma sociedade que desconfia de quem tem sucesso cria burocracia, medo e cinismo. Castra quem quer arriscar e torna mais difícil a quem está fora querer voltar.

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