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O calor também exige cuidados de saúde

17 de junho de 2026 às 11 h15

O verão nas Beiras tem uma beleza que tão bem conhecemos. Tem a luz pousada sobre os campos, a sombra das serras, a frescura procurada junto aos rios, as aldeias onde ainda se conhece o nome dos vizinhos e as cidades que guardam, entre pedra e memória, uma vida comunitária intensa. Do Mondego ao Zêzere, do Dão ao Côa, de Coimbra à Guarda, de Viseu a Castelo Branco, da Serra da Estrela ao Pinhal Interior, o verão é tempo de reencontro, de família, de festas e de regresso às origens.

Mas é também, cada vez mais, tempo de risco. O calor extremo deixou de ser uma anomalia passageira. É hoje uma ameaça real à saúde, sobretudo para os mais frágeis, e deve ser encarado como um verdadeiro problema de saúde pública.

O clima está a mudar diante dos nossos olhos. E quando o clima muda, também a sociedade, os serviços públicos e as políticas de saúde têm de mudar. Não podemos continuar a responder a fenómenos cada vez mais frequentes com soluções ocasionais, tomadas à pressa, sem antecipação, quando o termómetro já subiu e as urgências já começaram a sentir a pressão. O calor intenso exige preparação, prevenção e planeamento.

O calor não atinge todos por igual. É mais perigoso para idosos, crianças, grávidas, doentes crónicos, pessoas com deficiência, trabalhadores ao ar livre e pessoas que vivem sozinhos ou em casas mal isoladas. Nas Beiras, onde há envelhecimento, baixa densidade populacional e muitas aldeias distantes, este risco exige uma resposta de proximidade. Há pessoas para quem uma onda de calor representa perigo, agravamento de doenças cardíacas, respiratórias, renais ou neurológicas. É solidão dentro de uma casa demasiado quente.

Há cuidados simples que salvam vidas. Beber água regularmente, mesmo sem sede. Evitar álcool. Usar roupa leve e clara. Procurar locais frescos. Evitar esforços nas horas de maior calor. Proteger a cabeça. Manter as casas arejadas à noite e fechadas durante o pico do calor. Nunca deixar crianças, idosos ou animais dentro de carros estacionados. Parece básico, mas na saúde pública o básico salva vidas.

Mas seria injusto pedir às pessoas que se protejam sem lhes dar condições para o fazer. Precisamos de políticas locais mais fortes. Cada município deve ter um plano de calor conhecido e divulgado, operacional e articulado com unidades de saúde, juntas de freguesia, bombeiros, proteção civil, farmácias, IPSS e associações locais. É essencial identificar previamente quem vive sozinho, quem tem doença crónica, quem recebe apoio domiciliário e quem precisa de contacto regular em dias de alerta.

As Beiras devem criar mais refúgios climáticos. Bibliotecas, escolas, juntas de freguesia, centros de dia e outros espaços frescos podem ser decisivos, desde que tenham água disponível, horários adequados e transporte para quem não se consegue deslocar. A rádio local, a imprensa regional, as farmácias, as paróquias e as juntas continuam a ser pontes fundamentais para chegar a quem mais precisa. Nem tudo se resolve com tecnologia. Muitas vezes, salva-se uma vida com uma chamada, uma visita, uma porta que se bate e uma pergunta simples: “está bem, precisa de alguma coisa?”

Também é urgente proteger quem trabalha ao sol. Agricultura, construção civil, limpeza urbana e outros setores devem adaptar horários, garantir pausas, sombra e água. A economia não pode ser feita à custa da saúde das pessoas. O trabalho digno também se mede pela forma como protegemos quem tem de continuar na rua quando todos procuram abrigo. O futuro exige vilas e cidades com mais árvores, mais sombra, habitação reabilitada, escolas preparadas e lares com conforto térmico.

O verão continuará a chegar. O que não pode continuar é a surpresa perante aquilo que já sabemos que vai acontecer. Nas Beiras, como no país, proteger a saúde perante o calor é uma responsabilidade de todos. E uma sociedade verdadeiramente humana mede-se também assim: pela forma como cuida de quem mais precisa quando o clima aquece.

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