A Suíça recusou fechar-se
Ontem, 14 de junho, a Suíça rejeitou em referendo a iniciativa do SVP, “direita radical” que queria inscrever na Constituição um teto de dez milhões de habitantes até 2050. À hora que escrevo, os últimos resultados parciais dão 55% de “não” contra 45% de “sim”. Um país de 9,1 milhões, com mais de um quarto de residentes nascidos no estrangeiro, recusou travar a imigração e arriscar a livre circulação com a UE. Não é inédito.
Em 2014, os suíços aprovaram por escassa margem a iniciativa “contra a imigração em massa”; o Parlamento esvaziou-a para salvar os acordos bilaterais com Bruxelas. A democracia direta regressa, ciclicamente, ao mesmo nervo: prosperidade aberta contra identidade fechada.
O mapa de hoje é revelador. Basileia-Cidade rejeitou com 73,5%, Neuchâtel com 67,3%, Genebra com 65,4%, Vaud com 64,5%. O “sim” venceu sobretudo em Appenzell Interior, rural e conservador, com 65,9%. O próprio líder do SVP admitiu ontem que o campo votou “sim”, mas foram as cidades a inclinar a balança.
O Röstigraben, a fronteira invisível entre a Suíça francófona, urbana e europeísta, e os vales germanófonos voltou a desenhar-se. Há vários países dentro deste país; o referendo apenas os tornou legíveis. A lição no entanto, atravessa fronteiras. Onde a Europa converte a ansiedade migratória em muros, a Suíça submete-a a deliberação e, desta vez, recusou-a. Para os 264 mil portugueses que aqui vivem, terceira maior comunidade estrangeira, o “não” é alívio concreto. Mas a margem é estreita: o medo não foi derrotado, foi adiado. E a pergunta de fundo permanece em toda a Europa: pode uma sociedade próspera continuar aberta sem deixar de ser ela própria?

