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Que pena

05 de junho de 2026 às 08 h39

A “Criatividade Normativa” transforma os dados que colocamos nos documentos, apazigua a verdade com a expectativa,
carrega a ilusão daquilo que ambicionamos.
Por exemplo, o Edifício Prisional de Lisboa pode converter-se num hotel, bastando reclassificar os critérios de qualidade.
Outro exemplo seria alterar os índices de qualidade em saúde, ou escolher os que convêm, para depois garantir que estamos num bom momento. A criatividade do legislador tem, por essa razão, importância de avaliação e de colocação em índices verificáveis claramente favoráveis ao objectivo do mandante. O problema destes truques, subterfúgios, manigâncias, jogos de cintura, baloiços da verdade é que os factos não variam. Se estivermos atentos e formos buscar a realidade sem montagem, sem filtros, a vertigem do real aperta o prevaricador criativo. O jogo desta gente é o controlo da informação da avaliação.

O que vai ser publicado é mais importante que o real, só que a realidade ofusca pela evidência. O EPL é como um canil onde estão pessoas. Não se compara, mesmo numa visão de boçal, com a cadeia famosa de El Salvador.

Na cadeia mandada fazer por Nayib Bukele os presos não estão a morrer, ou a serem espancados. Os índices são claros, a aposta é transparente, e apesar das muitas divergências que podíamos ter, a realidade é mais limpa, menos decadente que a montra prisional portuguesa. O EPL foi vendido a privados há vinte anos, os donos obviamente não fazem as obras, os inquilinos são presos à guarda do estado português que paga renda desde a venda.
Ou seja, já pagou a peça ao comprador mais de duas vezes. Na criatividade normativa é um presídio sem sobrelotação,
é um lugar de suicídio e doença consentidas.

Portugal encheu-se destas anormalidades em que lança publicações cheias de mentiras adaptativas para se maquilhar.
A vertigem do real vem depois, quando os mecanismos independentes internacionais multam com pesadas quantias o estado vigarista em que nos convertemos.
Nayib Bukele questiona frequentemente os estados que se encontram reféns de poderes narcotraficantes, de máfias, de polvos que impedem a transparência e o desenvolvimento de um país. Num estado militarizado como o Brasil ou o México, ou a Colômbia, como podem existir províncias inteiras, territórios de milhares de pessoas subjugadas pelos criminosos?

• Só se eles dominam o próprio estado, afirmou recentemente.
A impressão subjectiva de impunidade do polvo cresc45e entre os Portugueses quando percebem que a hemorragia financeira os obriga a cada dia pagar mais impostos. Foi a decisão de salvar o BES, o fechar das centrais de energia a carvão, a incapacidade de cobrar o IVA das barragens aos chineses da EDP, a permissividade Berardo, a ignorância de Vítor Constâncio, a reforma dourada de Pinho, Filipe Pinhal, entre muitos, as subvenções vitalícias, a acumulação de benefícios de Assunção Esteves, tudo no mesmo lugar em que o salário mínimo é inferior a mil euros. A criatividade normativa está a servir de tremor de terra aos pilares da democracia.

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