No Atlântico Sul, algo de novo…
Quase despercebidamente, e após mais de 25 anos de negociações, entrou em vigor de forma provisória, no dia 1 de maio, o acordo de comércio livre entre a União Europeia e o Mercosul. Tendo sobrevivido a mudanças de governos, crises económicas e resistências internas de ambos os lados do Atlântico, este tratado assume um forte valor simbólico no atual contexto internacional — muito fragmentado e marcado por tensões geopolíticas — e traduz uma reconfiguração da relação entre dois blocos que, juntos, ultrapassam os 700 milhões de pessoas.
Ao criar a maior zona comercial do mundo, o acordo reduz ou elimina tarifas sobre exportações europeias para os países do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai), permitindo que automóveis, máquinas, produtos farmacêuticos ou agroalimentares cheguem a estes destinos a preços mais baixos. Em contrapartida, facilita a entrada na Europa de bens agrícolas como carne bovina, açúcar ou soja, embora com quotas e salvaguardas destinadas a proteger os produtores nacionais de aumentos súbitos das importações. Permite também às empresas do Velho Continente concorrer em condições de igualdade a concursos públicos sul‑americanos e reforça a proteção de 344 indicações geográficas da UE (entre as quais o Queijo da Serra ou o Mel da Serra da Lousã), combatendo imitações e garantindo o seu reconhecimento legal. Inclui ainda normas e compromissos comuns para assegurar que o aumento das trocas não se faz à custa da saúde pública, da segurança alimentar ou da proteção ambiental.
Para Portugal, abrem‑se perspetivas favoráveis para máquinas e equipamentos, indústria farmacêutica, metalomecânica ou automóvel — setores em que o país tem grande capacidade exportadora e beneficiará de acesso facilitado a mercados amplos, jovens e em crescimento. Também produtos como vinho, azeite ou queijo poderão “conquistar” consumidores mais sofisticados e dispostos a pagar por qualidade. Mas, como em qualquer processo desta natureza, existem riscos associados: a nossa agricultura — assente em pequenas explorações e baixa produtividade — enfrentará uma forte concorrência de bens produzidos em larga escala no Brasil e na Argentina, expondo ainda mais as suas fragilidades.
Ainda assim, o saldo líquido para a economia nacional tem tudo para ser positivo. Num país com comércio externo concentrado num número reduzido de parceiros, o Mercosul não é apenas uma nova frente exportadora: constitui uma alavanca para diversificar mercados, aumentar a resiliência do tecido empresarial, reduzir a dependência de choques externos e reforçar a presença nas cadeias globais de valor. Ganhos que serão tanto maiores quanto mais diferenciados forem os produtos portugueses e mais consistentes as políticas públicas que apoiem a inovação, a internacionalização e o acesso das empresas ao financiamento.
Num mundo de tarifas “à la carte”, competição estratégica entre grandes potências e influência crescente da China na esfera global, este acordo pode ser encarado como uma resposta geopolítica: a Europa garante acesso a matérias‑primas, energia e parceiros estáveis; o Mercosul ganha previsibilidade e investimento. Portugal, pela sua pequena dimensão e elevada exposição ao exterior, encontra aqui uma oportunidade rara para ganhar escala — se for capaz de transformar o desafio da integração num mercado que representa cerca de 2% do comércio mundial numa vantagem efetiva.


