Uma boleia para as Portas do Inferno
Após um pequeno almoço no hotel que se resumiu a duas fatias de salame frito com um ovo estrelado, pão e chá, procuro a gare de autocarros em Ashgabat, a capital do Turquemenistão. Tenciono dormir em pleno deserto Karakum, em Darvazza, nas chamadas “Portas do Inferno”, nome dado pelos locais a uma cratera assente num campo de gás natural que arde ininterruptamente desde 1971. Os geólogos soviéticos que descobriram esse espaço optaram por queimar o gás nocivo de metano que dali saía para a atmosfera, pensando que tal duraria apenas uns dias, mas há já meio século que ele dá vida à chama imensa deste buraco com 69 metros de diâmetro e 30 de profundidade.
– Precisa de ajuda? – pergunta-me Edjesh, uma mulher de meia idade num inglês fluentíssimo. Escreveu-me as indicações para mostrar aos motoristas e pagou-me também o táxi para uma outra estação de onde sairia afinal o transporte que precisava.
O condutor reúne sete passageiros no seu monovolume e arrancamos. Reina um ambiente de boa camaradagem, mesmo com as minhas diplomáticas recusas em ajudar a esvaziar a adega portátil de garrafas de vodka que trouxeram consigo.
Ultrapassamos um veículo do Mongol Rallye, a mítica prova motorizada que parte de Praga e termina em Ulan Bator, cuja regra de ouro é ter um carro que custe menos de 1000€. Foi o primeiro de uma dezena, pelo que percebi que todos iriam dormir no mesmo sítio que eu. Mais à frente, peço ao motorista para parar o carro e me deixar no meio do nada, onde suponho que seria a cortada para o meu destino.
Surgem adolescentes de mota a oferecer os seus préstimos, mas declino o negócio. Aguardo pela chegada dos primeiros concorrentes e faço parar uma equipa de sicilianos para que me levassem. Como tinham o carro cheio de provisões e peças sobresselentes, desenrascámo-nos à boa maneira mediterrânica.
Segui, assim, na bagageira do velho Seat Ibiza com o corpo meio fora pois a porta teria de ir aberta para eu ali caber enquanto me banhava naquele pó que descolava do deserto.
Chegámos à famosa cratera. Ali comi a melhor refeição da viagem, uma pasta confecionada pelos italianos num petromax, à luz dos frontais. A tudo isto, juntei uma noite dormida na mala do carro, com pernas esticadas para um avançado, sob a estrelas e aconchegado por aquele bafo que parece que vinha do centro da Terra.
E do inferno se fez céu.


